"A igreja Universal tem uma grande dívida de gratidão para com todos os Monges" O Monaquismo,oriental juntamente com o ocidental, constitui um grande dom para toda a Igreja"(Papa João Paulo II Rivola -Bulgária 27-05-2002). "O Monge é memória evangélica para os cristãos e para mundo" (Papa João Paulo II Rivola -Bulgária 27-05-2002)

Ano: IV Edição: Mensal N°:  XLII  Mês: Abril de 2007.

Informativo Oficial da Congregação Monástica de Santa Cecilia

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Pe. Inácio José do Vale osbm
O brilho e beleza mística de um trabalho resplandecem nas mãos de quem o faz orando.

O PRIMEIRO SANTO GENUINAMENTE BRASILEIRO

 

O Frei Galvão viveu em um dos períodos mais ricos da História do Brasil.

            O vice-rei, dom Luís de Almeida Portugal, marquês do Lavradio, em 1763, transferiu a capital de Salvador, na Bahia, para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, medida que consolidava a capital como passagem obrigatória para o ouro e os diamantes vindos das Minas.

A arte flui a todo vapor na pessoa do maior mestre da arte barroca mineira, Aleijadinho, Antônio Francisco Lisboa (c.1730-1814). Nasce em Vila Rica, atual Ouro Preto. Escultor, entalhador e arquiteto, traçou igrejas e criou esculturas em estilo barroco em Ouro Preto, Congonhas, Sabará, São João del-Rei, Tiradentes, etc.

Entre suas principais obras se destacam a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (MG) e o conjunto de esculturas: Os Passos da Paixão e Os Doze Profetas em Congonhas do Campo (MG).

Em Vila Rica é criado o herói da inconfidência Joaquim José da Silva Xavier (1764-1792), o Tiradentes, nascido em São João Del Rei – MG.

De todos os inconfidentes condenados a morte, somente Tiradentes foi executado. Enforcado no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1792, seu corpo é esquartejado e a cabeça, exposta na praça central de Vila Rica.

O Padre pernambucano Joaquim do Amor Divino Rabelo, mais conhecido pelo apelido Frei Caneca, é fuzilado no Forte das Cinco Portas, por ser líder da Confederação do Equador, revolução republicana e separatista que aconteceu no Recife. Frei Caneca (1779-1825), seu fuzilamento se deu no dia 13 de janeiro.

A família real chega em Salvador em 22 de janeiro, sábado e em 7 de março, desce no cais da atual Praça 15, no Rio de Janeiro em 1808. O país, e, especialmente  a cidade fundada por Estácio de Sá, sofreriam tão grandes mudanças que começavam por apagar as marcas dos três séculos coloniais.

Em 16 de dezembro de 1815, dom João VI, o primeiro rei europeu a pisar no Novo Mundo, eleva o Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves.

A família real retorna definitivamente a Portugal em 1821, seu filho, dom Pedro I, príncipe herdeiro, fica no Brasil como príncipe regente. No dia 7 de setembro de 1822, proclama a independência do Brasil de Portugal. É coroado o primeiro imperador do Brasil em janeiro de 1823.

Onde foi proclamado o grito da independência? Na terra do Frei Galvão, São Paulo.

 
O PAPA BENTO XVI

 

O Concílio Vaticano II, falando da santificação que faz dos fiéis, inclusive leigos, participantes “do ofício sacerdotal, profético e régio de Cristo”, indica explicitamente sua dinâmica mais íntima: “Sejam para a glória do Criador e Redentor” (LG 31). Santificados, portanto, feitos participantes do amor e da missão de Cristo, “constituídos na liberdade régia”,os  discípulos farão tudo para o louvor de Deus. “a fim de que Deus seja tudo em todos” (LG 36).

Dentro desse contexto, em Cracóvia o Santo Padre, Bento XVI advertiu: “Dos sacerdotes, os fiéis aguardam somente uma coisa: que sejam especialistas em promover o encontro do homem com Deus. Ao sacerdote não se pede que seja especializado em economia, em edilícia ou em política. Dele se espera que seja especialista na vida espiritual” (25 de maio de 2006).

O Papa Bento XVI, em 26 de maio de 2005, no Mosteiro da Virgem Negra, considerada a Rainha da Polônia, dirigindo-se aos sacerdotes, disse que “o mundo e a Igreja precisam de sacerdotes santos, e, dirigindo-se de modo particular aos candidatos ao sacerdócio, fez um forte apelo, para que eles se deixassem “guiar por Maria e aprender de Jesus” e acrescentou: “fixai-O, deixai que Ele vos forme, para que um dia sejais capazes, no vosso ministério, de ver quantos se aproximarão de Cristo por meio de vós”.

Bento XVI, não se cansa de repetir: “É de santos, e não de executivos, que a Igreja precisa para responder às carências do homem”.

Diz mais: “os santos foram personagens profundamente obedientes e, ao mesmo tempo, homens de grande originalidade e independência pessoal”.

O Frei Galvão, se encaixa muito bem no pensamento do Pastor Universal.

Será um momento imensurável no pontificado de Bento XVI, a canonização do primeiro Santo brasileiro, na maior nação católica do mundo, na maior cidade da América Latina, na nação que tem o maior Santuário Mariano do planeta e que também tem a maior procissão do Universo: o círio de Nazaré, em Belém do Pará.

 
FREI GALVÃO, O SANTO DO BRASIL


“Depois de mais de 500 anos História, O Brasil tem a graça de ter um de seus filhos na glória dos altares. O primeiro sacerdote a celebrar a Santa Missa nestas terras brasileiras foi um franciscano, Frei Henrique de Coimbra. O primeiro santo nascido no Brasil é também um filho de São Francisco de Assis, nascido em Guaratinguetá, SP. Neste Brasil querido onde o Santo de Assis é tão amado, onde se reza muito: “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa Paz”, onde o franciscano Santo Antônio é o santo mais popular, agora temos o nosso santo: Antônio de Sant’Ana Galvão, “o santo da Paz e da Caridade”, modelo para todos”, escreve o Frei Paulo Back, OFM.

No Brasil e no mundo, os filhos de São Francisco de Assis, são amados, respeitados e venerados por incontáveis multidões de fiéis. Até os não crentes, tem amor e admiração pela obra dos santos franciscanos.

No Nordeste quem não conhece o Frei Damião, e no Brasil inteiro quem não conhece São Maxiliano Maria Kolbe e Padre Pio, ou seja, São Pio de Pietrelcina.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

 

O HOMEM DA PAZ E DA CARIDADE

Cidade do Vaticano, segunda feira 18 de dezembro de 2006. A Congregação para as causas dos Santos foi autorizada esse sábado por Bento XVI a promulgar decreto em que aprova milagre atribuído à intercessão do beato Frei Galvão, o que abre as portas a que ele seja proclamado o primeiro santo nascido no Brasil.

Com isso, alimenta-se a esperança dos inúmeros devotos de Frei Galvão de que ele seja canonizado durante a visita do Papa ao Brasil em 11de maio de 2007.

Frei Galvão nasceu em 1739 de uma família profundamente piedosa e conhecida pela sua grande caridade para com os pobres. Batizado com o nome de Antônio de Sant’Ana Galvão, depois de ter estudado com os Padres da Companhia de Jesus, na Bahia, entrou na Ordem dos Frades Menores em 1760; diz biografia difundida pela Santa Sé.

Foi ordenado Sacerdote em 1762 e passou a completar os estudos teológicos no Convento de São Francisco, em São Paulo, onde viveu durante 60 anos, até á sua morte ocorrida a 23 de dezembro de 1822.

A vida de Frei Galvão foi marcada pela fidelidade à sua consagração como sacerdote e religioso franciscano, e por uma devoção particular e uma dedicação total à Imaculada Conceição, como “filho e escravo perpétuo”.

Além dos cargos que ocupou dentro da sua Ordem e na Ordem Terceira Franciscana, ele é conhecido sobre tudo como fundador e guia do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição, mais conhecido como “Mosteiro da Luz”, do qual tiveram origem outros nove mosteiros.

Além de Fundador, Frei Galvão foi também, o projetista e construtor do Mosteiro que as Nações Unidas declararam Patrimônio cultural da humanidade.

Enquanto ele ainda vivia, em 1798 o Senado de São Paulo definiu-o “homem da paz e caridade”, porque era conhecido e procurado por todos como conselheiro e confessor, além de o franciscano que aliviava os doentes e os pobres, no silêncio da noite.

Frei Galvão convida-nos a crescer em santidade e na devoção a Nossa Senhora da Conceição e deixa a todos nós brasileiros a grata mensagem de sermos pessoas da paz e da caridade, sobretudo para com os pobres e os marginalizados.

O religioso foi beatificado pelo Papa João Paulo II no dia 25 de Outubro de 1998.

Em sua homilia na concelebração eucarística, o Papa disse que Frei Galvão “quis corresponder à própria consagração religiosa, dedicando-se com amor e devotamento aos aflitos, aos doentes e aos escravos da sua época no Brasil”.

“Sua fé genuinamente franciscana, evangelicamente vivida e apostolicamente gasta no serviço ao próximo, servirá de estímulo para o imitar como “homem da paz e da caridade”.

Segundo João Paulo II, “a missão de fundar os Recolhimentos dedicados a Nossa Senhora e à Providência continua produzindo frutos surpreendentes: ardoroso adorador da Eucaristia, mestre e defensor da caridade evangélica, prudente conselheiro da vida espiritual de tantas almas e defensor dos pobres”.

 
RESUMO E CONCLUSÃO

 Frei Antônio de Sant’Ana Galvão nasceu em Guaratinguetá, estado de São Paulo, no ano de 1739. Ordenou-se sacerdote franciscano e consagrou-se a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, assinando esse ato com seu próprio sangue. Graças às suas virtudes, a seus dons sobrenaturais e a sua caridade para com os doentes e carentes, ainda em vida era considerado santo.

De sua inspiração as famosas “Pílulas de Frei Galvão”, com jaculatória escrita invocando Nossa Senhora, muito procuradas em momentos de angústia e doença. Frei Galvão fundou e construiu para religiosas, em São Paulo, o Mosteiro da Luz. Destacou-se como arquiteto nessa notável construção, hoje declarada pela UNESCO como “Patrimônio Cultural da Humanidade”. Frei Galvão faleceu em 1822, com fama de santidade, e está sepultado na capela do Mosteiro da Luz. Em 1998 foi beatificado pelo Papa João Paulo II, dele recebendo os títulos de “Homem da Paz e da caridade” e de “Patrono da Construção Civil no Brasil”. Sua festa é realizada a 25 de Outubro, data de sua beatificação.

A Vida dos santos é como Hóstia pura e imaculada, que nos convida a imitá-los. Só pelos olhos da santíssima fé, entendemos Visão Beatífica dos Santos.

Os santos são como livros que contêm figuras. Nas letras, lemos as suas virtudes e nas figuras, os sinais miraculosos, operados por Cristo.

Os santos são como o sol, ilumina as nossas trevas e nos aquece das nossas mornidões. São como fogo, cujas chamas são incendiária, para aqueles que desejam queimar suas mazelas. São Como água, não só tem para nossa sede, como nos leva a fonte da ÁGUA DA VIDA.

Disse São Paulo Apóstolo: “Sede meus imitadores, como eu mesmo o sou de Cristo” (I Coríntios 11,1).

“A vida dos santos contêm uma mensagem de beleza e de esperança. Os santos acreditaram em Cristo, cujo reino, que “não era deste mundo”,tornava-se uma realidade neste mundo”, escreveu René Fiilöp – Miller, autor da obra clássica: “Os Santos que abalaram o mundo”.

Realmente, os santos são verdadeiros morigerados. Que o diga o ínclito Frei Galvão, nosso primeiro santo, genuinamente brasileiro.

Pe. Inácio José do Vale
Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja
Faculdade de Teologia de Volta Redonda

B I B L I O G R A F I A

 www.zenit.org
Pergunte e Responderemos, janeiro de 2007. p.16.
Jornal do Brasil, 03/03/2007.
Coleção Almanaque Abril Nº 8.
Nossa História, novembro de 2003.
MCCAFFERY, John. Padre Pio: Histórias e Memórias, São Paulo: Loyola, 2006.
RATZINGER, Joseph e Messori, Vittorio.
A Fé em Crise? O cardeal Ratzinger se interroga, São Paulo: EPU, 1985.
FIILÖP – Miller, René. Os Santos que abalaram o mundo, Rio de Janeiro: José Olympo Editora, 1950.

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SER SANTO

 

Em 1935, com apenas 15 anos, Karol Józef Wojtyla ouvira num sermão: “Não é difícil ser santo”, e decidiu-se a tentar. Intensificou a vida espiritual: celibato, oração e meditação, para se manter na presença de Deus.
Seu catequista leigo, o alfaiate Jan Tyranowski, de quarenta anos, definido pelo seu confessor como “um alpinista espiritual”.

Tyranowski fundou o “Rosário Vivo” e Karol foi um dos seus primeiros aderentes e líderes. Eram grupos de quinze jovens, conduzidos por um deles; recebiam formação do fundador. Comprometiam-se na oração e na ajuda mútua. Dois anos depois, eram uns sessenta. Tudo clandestino e muito arriscado. Devido a Gestapo (polícia nazista). Tyranowski demonstrava que é possível, não apenas questionar-se sobre Deus, mas viver com Deus.

Para Karol, foi ocasião de descobrir a vida em Deus. E, muito especialmente, Tyranowski revelou-lhe a obra de São João da Cruz: a “noite escura” é a entrega sem mais a um Deus que não imaginamos nem condicionamos. Amor e liberdade totais, num mundo tão terrivelmente opressor como era o da Polônia ocupada pelos nazistas. Libertação interior que marcará para sempre o apostolado de Wojtyla.*

O jovem Karol tornou-se o Papa João Paulo II. O ínclito Papa da Paz, teve a sua vida marcada pelo sinal da santidade.

Em dezembro de 1994, a Revista Time elegeu João Paulo II o “Homem do ano”. Justificou assim a escolha: “em um ano em que tantas pessoas lamentam a deterioração dos valores morais ou buscam pretextos diante de um mau comportamento, o Papa João Paulo II levou adiante, com determinação, sua visão de uma vida reta e convidou o mundo a fazer o mesmo. Por essa retidão, ele é o “Homem do ano”. Em matéria de 25 páginas, a revista apresenta a biografia do Papa, com destaque para suas alegrias e sofrimentos: sua angústia pela situação da Bósnia e por outras guerras no mundo pela decadência dos valores morais e, sobretudo, sua preocupação com a santidade do ser humano para a qual, segundo o texto, “o Papa é uma força moral”.

O Santo Padre João Paulo II, na sua mensagem aos jovens para o Dia Mundial da Juventude do ano de 2000, afirmou: “Jovens, não tenhais medo de ser os santos do novo milênio”. “Toda vocação na Igreja está a serviço da santidade” (Da Mensagem do Papa para o XXXIX Dia Mundial de Oração pelas Vocações em 21/04/02).

O padre Charles D’Souza, SVD, missionário indiano escreve: “A santidade é fonte de irradiação. Todas as grandes tradições espirituais – a vida monástica ou apostólica – e todas as grandes figuras missionárias ou espirituais têm uma coisa em comum: a busca da santidade pessoal ou a aspiração à perfeição evangélica”.

“Não existiriam mais pagãos, escreve o historiador americano Kenneth S. Latourette buscando traduzir o pensamento de São João Crisóstomo, se os cristãos fossem verdadeiros cristãos”.

Na constituição da SVD, (c. 1898,13) está escrito: “Quanto mais avançamos na justiça e santidade, mais honramos a Deus e obtemos a salvação do próximo”.

A maior defesa da Santa Igreja de Deus, está na santidade de seus filhos. É na santidade que se encontra toda solução eclesiástica e do mundo inteiro.

O intelectual Calvinista José Scaliger teve a franqueza de confessar quanto bem lhe faz a leitura da Vida dos Santos. “A história dos Santos, diz ele, impressiona a alma piedosa e comove-a profundamente. Qualquer um pode fazer esta experiência em si próprio. Eu mesmo devo confessar, que na história da Igreja não achei nada que me comovesse tanto, como a Vida dos Santos”.

A santidade é arte de todas as artes, que tem como objetivo o céu e a conversão dos pecadores.

“Procurai a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, vigiando atentamente para que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus” (Hebreus 12,14 e 15).

São Paulo Apóstolo exorta o jovem presbítero Timóteo: “Que ninguém despreze a tua jovem idade. Quanto a ti, sê para os fiéis um modelo na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na pureza” (I Timóteo 4,12).

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*Clemente, Manuel. Os papas do século XX, São Paulo: Paulus, 2004.p.102.
 

Não adianta, falar, pregar e escrever sobre a santidade e não vivê-la.Escreve São Paulo Apóstolo: “O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtude” (I Coríntios 4,20).

Alguém pode perguntar: é difícil ser santo? Santo Agostinho de Hipona responde: “O que eles conseguiram, porque não haveria eu de conseguir também?” Para Deus nada é impossível (Lucas 1,37). A vontade de Deus é a nossa santificação (I Tessalonicenses 4,3). Somos salvos pela graça e por meio da fé, e tudo isso é dom de Deus (Efésios 2,8). Somos justificados pelo sangue de Jesus Cristo (Romanos 5,9). Somos purificados e santificados pela Palavra de Deus (João 15,3; 17,17). O Deus da paz vos conceda santidade perfeita; e que o vosso ser inteiro, o espírito, a alma e o corpo sejam guardados de modo irrepreensível  para o dia da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo (I Tessalonicenses 5,23).

Orava, Santo Agostinho: “Inunda-me, ó Divino Espírito. Faz com que todos os meus pensamentos sejam santos. Guarda-me o Espírito, para que eu seja sempre Santo. Amém!”.

O QUE É SANTIDADE

Um dos grandes pensadores e profetas do século XX, Leon Bloy declarou: “Só há uma tristeza: a de não ser santos”.

A pior desgraça e miséria do ser humano é não ter vontade de santidade. Quem não está para Deus, está para o diabo, quem não está para o céu, está para o inferno, está para o pecado. E o salário do pecado é a morte (Romanos 6,23).

Tarig Ramadan, pesquisador sobre o Islã, da Universidade de Oxford diz que estamos vivendo na difícil “era de temores e suspeitas”.

Realmente, estamos vivendo a era mais difícil da história da humanidade. Os temores têm levado as pessoas ao abismo do relativismo, com medo da verdade absoluta. Segundo o Papa Bento XVI, estamos vivendo uma ditadura do relativismo.

Para o cientista italiano em ciência política e da comunicação, Giovanni Sartori afirma que “o relativismo é um comportamento suicida: se tudo equivale, nada vale, os valores desaparecem”.

Na abundância do pecado do relativismo, superabundou a graça da pregação do Evangelho, do reino de Deus. Cujo anúncio é: “Arrependei-vos, e crede no Evangelho”. (Marcos 1,14 e 15).

Deus quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade (I Timóteo 2:4). A verdade é Jesus Cristo, que liberta o ser humano do relativismo e do seu individualismo radical. (João 14,6; 8,32).

Depois de arrependido, convertido e liberto, o ser humano passa a viver como uma nova criatura (II Coríntios 5,17), e andar em novidade de vida (Romanos 6,4), isto é, em santidade.

Mas, o que é santidade? Responde o Sr. Bispo Dom G. Huyghe: “A santidade não é um esporte onde triunfam os heróis, mas uma aventura da misericórdia onde serão satisfeitos os pequenos e humildes (...); a convicção aceita com alegria, de uma miséria profunda que a misericórdia de Jesus salva continuamente”.

Para cultura judaica, a santidade estava em guardar a lei e os mandamentos (Êxodo 20,1-26; 21,1). Nos Santos Evangelhos, a santidade se encontra no amor a Deus e no próximo (Mateus 5,44; 22,34-40). Na Igreja Primitiva, no Pentecostes contínuo (Atos 2,42-47; 4,30.31;10,44-48; 19,4-7). Nos Padres do Deserto, na ascese do silêncio misterioso. Disse Macário o Antigo: “Não julgueis ninguém e aprende a calar-te”.

No século XXI, a santidade é tudo isso e mais: a conscientização pela justiça social e pela cultura de paz. “O reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça e paz (Romanos 14,17). “O mundo foi criado para transformar-se em reino por meio do fermento dos santos, que podemos ser todos nós, convocados por Jesus como parceiros da redenção” diz o Sr. Cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo.

Declara magistralmente o Papa João Paulo II: “A verdadeira paz é fruto da justiça, virtude moral e garantia legal que vela sobre o pleno respeito de direitos e deveres e a eqüitativa distribuição e benefícios e encargos”. (João Paulo II, mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2002).

Descreve o Concílio Vaticano II:

É, pois, bem claro que todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou classe, são chamados à plenitude da vida cristã e á perfeição da caridade: por esta santidade se promove, também na sociedade terrena, um teor de vida mais humano.

Empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida da dádiva de Cristo, para alcançar esta perfeição, a fim de que, seguindo os seus exemplos, tornando-se conformes à sua imagem e obedecendo em tudo à vontade do Pai, se dediquem á glória de Deus e ao serviço do próximo.

Assim a santidade do povo de Deus crescerá oferecendo abundantes frutos, como o demonstra brilhantemente, através da história da Igreja, a vida de tantos santos” (LG 40).

 
                                               MEIOS DE SANTIFICAÇÃO

 
Somos condenados por causa da praga do pecado (Romanos 6,23). Éramos por natureza filhos da ira de Deus (Efésios 2,3; Colossense 3,6). Por meio da morte de Jesus Cristo na cruz fomos justificados (considerados livres da condenação) gozamos a paz com Deus e santificação (Romanos 5,1-10).

É de suma importância entendermos que a justificação e santificação sempre andam juntas. O bom Deus nunca justifica a pessoa sem também santificá-la (Romanos 8,29.30; Efésios 1,4). É Deus que nos chama para santidade (I Tessalonicenses 4,7). Deus é fiel, e é ele que vai agir (I Tessalonicenses 5,24; I Coríntios 6,11). Tudo isso é a obra maravilhosa da graça do amor de Deus em nossa vida.

O primeiro meio de santificação é a disciplina do sofrimento. “É para a vossa educação que sofreis. Deus vos trata como filhos. Qual é, com efeito, o filho cujo pai não educa? Deus, porém, nos educa para o aproveitamento, a fim de nos comunicar a sua santidade” (Hebreus 12,5-10).

O apóstolo São Paulo afirma com categoria: “Penso, com efeito, que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós”. “E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio” (Romanos 8,18.28).

O teólogo AD. Tanquerey diz que “ao ler a vida dos Santos, duas coisas nos espantam: as terríveis provações que padeceram, as mortificações que livremente se impuseram a si mesmos; e, por outro lado, a paciência, a alegria, a serenidade no meio destes sofrimentos”.

“Verdade é que algumas vezes Deus exige de alguns dos seus filhos atos heróicos e até sacrifício da própria vida, como o exigiu dos mártires, mas em tais casos dá a graça necessária para fazer tais sacrifícios, como a deu a Santo Estevão e a todos os mártires”, afirma Dom Fernando, bispo falecido de Jacarezinho.

Atos heróicos e vida de sacrifícios foi a trajetória do Papa João Paulo II.

Perdeu o pai durante a segunda Guerra Mundial, em 18 de fevereiro de 1941, com 62 anos. A mãe faleceu quando Karol tinha apenas 9 anos, em 1929. Teve um irmão e uma irmã, ambos mais velho do que ele. O irmão formou-se em medicina. Morreu em 1932, vítima de epidemia de escarlatina. A irmã morreu com apenas alguns dias de vida, em 1914. Aos 21 anos, ficou sem pais e sem irmãos. A família era humilde e sofrida.

Para fugir à perseguição do nazismo, Karol empregou-se na usina química Solvay. Inicialmente, o trabalho de Karol era numa pedreira, depois foi transferido para a usina propriamente dita. Pelo teatro e por outras articulações, Karol colaborou intensamente na resistência dos poloneses contra os invasores nazistas.Para despistar a polícia e não ser preso precisou deslocar-se diversas vezes de um lugar para outro.

Em 1944, Varsóvia se rebelou contra a invasão dos nazistas, estes acabaram concentrando todo seu furor contra Cracóvia. O bispo de Cracóvia acabou escondendo Karol no porão do arcebispado, onde passou cinco meses sem ver o sol. Foi em 1944, no dia 12 de fevereiro, como operário e seminarista clandestino, que Karol sofreu um acidente que quase lhe roubou a vida. Ao retornar da Solvay, foi atropelado por um caminhão alemão. O diagnóstico médico acusou comoção cerebral com grandes ferimentos na cabeça. Mas, um mês depois, saiu curado do hospital.

O papa João Paulo II foi duramente marcado pelo sofrimento. Em 13 de maio de 1981, foi vítima de um atentado em plena praça de São Pedro. O tiro de que foi alvo submeteu-o a uma delicada cirurgia com extração de parte do intestino. Em julho de 1992, precisou de uma nova internação hospitalar. Desta vez para extirpar um pequeno tumor também no intestino. Em 1994, em conseqüência de uma queda, fraturou o fêmur. (Pe. Antonio Valentini Neto (org.), João Paulo II “João de Deus”, 2005. pp. 7-22).

Descobriu-se que os acidentes sofridos pelo papa, eram manifestações do Mal de Parkinson. “O papa morreu aos 84 anos, cinco semanas depois de sofrer uma traqueostomia. A última imagem de João Paulo II, registrada poucos dias antes de sua morte, é de uma pungência capaz de emocionar o mais duro coração ateu: mostra o papa à janela de seu apartamento privado, com uma expressão de dor, tentando balbuciar alguma palavras à multidão na praça de São Pedro. Poucas vezes um silêncio foi tão eloqüente” (Veja. Abril de 2005.p.14).

Nas exéquias de João Paulo II, o Sr. Cardeal Joseph Ratzinger disse: “O nosso papa, sabemos todos, jamais quis salvar a própria vida, tê-la para si; quis dar-se sem reservas, até o último momento, por Cristo e também por nós” (Veja, 27 de abril de 2005. p. 68).

Faz-nos lembrar das palavras de Jesus Cristo: “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10,11).
 
O segundo meio de santificação é a mortificação do corpo. Escreve São Paulo Apóstolo: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (I Coríntios 9,27). “Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nosso corpo” (II Coríntios 4,10). “Os que são de Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos” (Gálatas 5,24).

“Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gálatas 6,14).

Mortificar é renunciar todas as práticas carnais, é carregar a cruz e assumir a perfeição evangélica. Disse Jesus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me” (Mateus 16,24). “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial” (Mateus 5,48). “A cadeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz” (Mateus 6,22).

Horácio, poeta latino dizia: “Quanto mais o homem renuncia a si mesmo, mais se aproxima de Deus”.

Sobre a mortificação, um dos grandes mestres da espiritualidade cristã moderna, E. Tronson afirmou: “Assim como a imortificação é a origem dos vícios e a causa de todos os males, assim a mortificação é o fundamento das virtudes e a fonte de todos os bens”.

Mas, qual é o poder que nos garante a mortificação e a renúncia? O poder da graça de Deus. “Com efeito, a graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os homens. Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas, e a viver neste mundo com autodomínio, justiça e piedade” (Tito 2,11.12).

 
O terceiro meio de santificação é a prática das boas obras.

Disse Jesus: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai celestial” (Mateus 5,16). A caridade cristã está bem expressa em Mateus 25,31-46.

Escreve São Paulo Apóstolo: “Fiel é a palavra, e isto quero que deveras afirmes, para que os que crêem em Deus procurem aplicar-se às boas obras, estas coisas são boas e proveitosas aos homens” (Tito3,8.14).

Seremos julgados pelas nossas obras. (Apocalipse 20,11-15; 22,11.12).

Santo Tomás de Aquino, nos ensina que “a perfeição consiste essencialmente no amor de Deus e do próximo amado por Deus”. São Francisco de Sales afirma que “a caridade encerra todas as virtudes e até mesmo lhes dá uma perfeição especial”. É através da caridade cristã, que podemos mostrar a nossa santidade ao mundo. É pela caridade que revelamos o nosso Deus da bondade.
 
O quarto meio de santificação são os sacramentos.
 

Os sacramentos, recebidos com amor ardentes e fervorosas disposições, ajuntam aos nossos méritos pessoais uma prática extraordinária de graças que vêm dos próprios méritos de Jesus Cristo; e, como recebemos amiúde o sacramento da penitência e comungamos todos os dias, se queremos, não depende senão de nós o sermos santos.

O sacramento da penitência purifica-nos a alma no precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, contanto que estejamos bem dispostos, a nossa confissão seja leal e a nossa contrição verdadeira e sincera.

A Eucaristia, como sacramento, produz diretamente em nós pela sua própria virtude, ex opere operato, um aumento de graça habitual. É que na verdade a Santa comunhão foi instituída para ser o alimento das nossas almas.

Desta mútua colaboração brotam frutos abundantes de santificação.

“Somos, pois, não somente sacrários, mas ainda cibórios, onde Jesus Cristo habita e vive, onde os anjos o adoram, e onde devemos juntar as nossas adorações às deles”, diz o célebre teólogo AD. Tanquerey.

A Santíssima Eucaristia está no centro da vida cristã, segundo o Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino: “todos os outros sacramentos estão orientados para este sacramento como para seu fim”.

O quinto meio de santificação são as práticas cristãs.

Ler a Sagrada Escritura, oração, jejum, meditação, retiros espirituais, trabalho em pastorais, devoções com as coisas sagradas da Santa Madre Igreja e ler a Vida dos Santos. Dizia São Francisco de Sales: “A verdadeira devoção nada destrói; ao contrário, tudo aperfeiçoa. A devoção é a rainha das virtudes”.

“Depois do Santo Evangelho não há livro mais útil para os fiéis do que a Vida dos Santos, a qual, para dizer tudo numa só palavra, outra cousa não é senão o mesmo Evangelho posto em prática. Imagens vivas de Nosso Senhor Jesus Cristo, os Santos dão a Deus uma glória incomparável, manifestam de um modo palpável a vida divina da Igreja e, pela força irresistível do exemplo, excitam a todos à prática da verdadeira virtudes, ou da santidade cristã”, afirma Dom Fernando.

Os Santos pertenceram em vida à Igreja militante; como membros que são, do reino de Deus no céu, como filhos da Igreja triunfante, recebem as homenagens dos fiéis, seus irmãos na terra, que lhes imitam o exemplo de virtude. “Sede meus imitadores, como eu mesmo o sou de Cristo, escreve São Paulo Apóstolo aos Coríntios 11,1”.

A Igreja Católica é a “Igreja dos Santos”, disse o Dr. George Bernanos e o professor e escritor sacro Dr. Filipe Aquino escreve: “Os santos são em sua grande riqueza, como que reprodução do próprio Cristo”.

Depois da Santíssima Trindade, existe na Santa Igreja de Deus e no Universo uma riqueza maior do que a da Bem Aventurada Virgem Maria? Existe Sacrário mais perfeito do que o ventre de Maria?

Existe santidade maior do que aquela que foi esposa do Espírito Santo?

O Pe. Nilton César Boni, cmf, escreve: Maria desde os primórdios nos conduz ao Cristo. Ela, com seu exemplo e virtude, incita a humildade ao amor e á prática da santidade, da caridade e da misericórdia”.

                                                           CONCLUSÃO

A busca, a vontade, o desejo ardente de santidade, é uma prova do amor a Deus. Chegar a tal objetivo é passar pelo processo de paixão e páscoa de Jesus Cristo. A busca pela perfeição é uma atitude de repugnância ao pecado. É a decadência para os desejos ilícitos. É a morte do velho homem com todas as suas práticas imorais.

 “Ressuscitado com Cristo, busca as coisas do céu. Revestido do novo homem, segundo a imagem do seu criador. Eleito de Deus, santo, amado, misericordioso, humilde e manso” . (Colossenses 3,1-12).

O desejo é o primeiro passo para alcançar a santidade. O caminho da perfeição é difícil, árduo é preciso muito esforço e constante progresso. Exige perseverança, determinação e coragem. Não perder o foco nessa tão grande virtude. Não deixar de olhar para o maior de todos os santos: Jesus Cristo, (Hebreus 12,2). Diz Santo Agostinho: “Parar é recuar; deter-se para contemplar o caminho percorrido, é perder o ardor. Tender sempre a melhorar, ir sempre avante, tal é a divisa da perfeição”.

Ter o real desejo e a vontade sincera de agradar o Senhor Deus, é o sinal verdadeiro de ser santo seguidor de Cristo.

Disse o salmista Davi: “Senhor, diante de ti está todo o meu desejo” (Salmo 38,10). “O desejo dos justos Deus o cumprirá” (Provérbios 10,24).

Sabemos que o nosso esforço é notório e relevante, nesta estrada estreita, pedregosa, espinhosa, com barreiras, vales e montanhas. Sabemos também, que é Deus que opera tanto no querer como no efetuar (Filipenses 2,13). Operando Deus quem impedirá (Isaías 43,13).

A grande mística e ‘Doutora da Igreja’, Santa Teresa D’Avila, nos ensina pela peculiaridade de sua bendita vida: “Não restrinjamos os nossos desejos; isto é de suma importância. Creiamos firmemente que, mediante o auxílio divino e os nossos esforços, poderemos também nós, com o andar do tempo, adquirir o que tantos santos, ajudados por Deus, chegaram a alcançar. Se eles nunca houvessem concebido semelhantes desejos e se pouco a pouco não tivessem chegado a executá-los, nunca teriam subido tão alto... Ah! Quanto importa na vida espiritual animar-se ás grande coisas!”.

“Peçamos que o Espírito Santo nos infunda sua graça para atingirmos o dia de Pentecostes sua perfeição dos cinco sentidos e na observância do Decálogo; sejamos repletos de veemente espírito de contrição e de aceso testemunho pelas línguas de fogo, a fim de que, ardentes e iluminados nos esplendores dos santos, mereçamos ver o Deus, uno e trino” (Sermões de Santo Antônio de Pádua).

Purificados pelo sangue de Jesus (I João 1,8). Santificados em Cristo (I Coríntios 1,2). Continuemos a santificação do Espírito Santo, para fazer tudo sem murmurações nem reclamações, para vos tornardes irreprováveis e puros, filhos de Deus, sem defeito, no meio de uma geração má e pervertida, no seio da qual brilhais como astros no mundo, mensageiros da Palavra de Vida (Filipenses 2,14-16).

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Pe. Inácio José do Vale
Professor de História da Igreja e da Teologia
Seminário Teológico Ortodoxo da Santíssima Trindade

 

 
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