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A Palavra do Prior
Vida fraterna
Para uma Comunidade Religiosa ou Sacerdotal
é muito importante a vida fraterna que se traduz num
convívio de bom entendimento e compreensivo relacionamento
diário em todas as atividades. Essa vida de irmãos
é um sinal vivo e constante da presença de Jesus junto de
nós. Ele, Jesus, é o modelo acabado de amor mútuo
e de unidade mesmo na disparidade de idéias que se alternam
entre as luzes e sombras, isto é, entre o bem e o mal.
È preciso que se tenha uma consciência clara e aberta para
que se possa aderir a
concepção de que em todos nós rumina o bem e o
mal. Há uma força instintiva em cada ser humano que o
leva a sempre pensar que nele tudo está bem; porém o
cristão, mormente Religioso, deve questionar-se muitas vezes
sobre os movimentos interiores de sua alma, deve “vigiar sobre si
mesmo”. (Cf. I Tim. 4,16) Nesse caso uma procura do conhecimento
pessoal e interior, poderia ser o início para desabrochar na
vida comunitária como fagulhas de uma caridade que cultivada com
carinho o levará a santificação pessoal em si e
nos irmãos. Querer ser irmão de todos é um bom
indício, para começo de conversa, mas necessitará
do impulso constante, conseqüência de um esforço, que
por vezes pareceria exagerado, objetivando conseguir o intento de uma
perfeição na caridade fraterna e sem limites.
Mas essa fraternidade de irmãos não é
obrigação nem privilégio somente das
Congregações Religiosas, ela é tão ampla e
tem um leque tão vasto que atinge a Igreja toda, a partir do
Papa aos Bispos, sacerdotes e fiéis.
Em alguns momentos de nossa vida Religiosa e Sacerdotal somos tentados
a pensar que o ensinamento máximo de Jesus sobre o amor encontra
barreiras nas hierarquias. Certo Padre uma vez comentou: “pois é, antes dele ser bispo nós
éramos amigos, depois que ele foi nomeado e sagrado não
sei o que aconteceu, mas o certo é que ficou diferente”. Mesmo
que o Poder suba à cabeça, não deveria mudar nosso
grau de caridade fraterna com simplicidade e humildade. Irmãos
seremos sempre uns dos outros em igualdade da natureza humana embora
exista diferença no exercício do carisma e do dom
recebido de Deus. Nesse sentido é que se diz que somos todos
iguais. É um absurdo o distanciamento que se criam por
razões burocráticas, autoconceito de poderes, imperativos
legais e outros adjetivos que costumam dar para fazer brilhar o poder
temporal, o qual nada tem a ver com o imortal e eterno, portanto
não corresponde ao amor e a caridade que é a simplicidade
do Eterno refulgindo no perecível para santificar os mortais.
Mas a fraternidade de irmãos nem sempre corresponde ao desejo do
Senhor, quando na mesma Comunidade há picuinhas, rixas, “dores
de cotovelo” ciúmes, competição e uma
sistemática ânsia de puxar o tapete do outro. De modo
análogo se pode dizer das Comunidades ricas que sempre “choram
as pitangas” para justificar sua indiferença em ajudar
economicamente os irmãos de sua própria
Congregação ou seu Presbitério. João Paulo
II toca nesse assunto no “Diretório para o Ministério e a
vida do Presbítero” na página 90 lembrando o Documento
Conciliar Presbyterorum Ordinis 8. É condenável a
situação de alguns Mosteiros que esnobam a fortuna, com
todos os luxos da sociedade moderna enquanto há outros,
inclusive do mesmo ramo e seguindo a mesma Regra vivendo na pior das
amarguras por falta de recursos financeiros. Isto
podemos qualificar de falta de vida fraterna, desleixado
conceito da caridade do Senhor a quem servem e alguma vez nos Votos
solenes juraram, deitados na frente do altar, segui-lo radicalmente
servindo em seu amor nos irmãos.
Nesse clima sobra pouco espaço para as
Congregações novas. Primeiro pelo pouco caso que as mais
velhas fazem desses novos grupos e segundo, pela nula ajuda recebida
tanto de seus co-irmãos quanto das agências
Católicas de ajuda internacional. Não só ajuda
financeira, mas logística e moral.
Nossa Congregação Monástica tem experimentado na
carne a indiferença, o desamor à
discriminação e os preconceitos, inclusive de alguns
Excelentíssimos Bispos que simplesmente não apóiam
por desconhecerem. Um deles assim se expressou: “Não os
conheço”. Será que conhece Jesus Cristo? Quem
não conhece o irmão provavelmente desconhece seu Senhor.
Penso que a vida fraterna dentro dos parâmetros da caridade do
Evangelho deve ser a base de uma nova,
eficiente e bem sucedida Evangelização. Evangelizar na
Caridade é atrair a paz. Despojar-se de si, dos interesses
meramente humanos e das grandezas que um pseudo poder, eventualmente
poderia dar é, por si só, um ato de Cristianizar o mundo.
A vida fraterna vivida conforme o programa traçado pelos
Apóstolos e pelo próprio Jesus é o
princípio Crístico, do amor dentro nós. Em nossas
Congregações Religiosas encarece que
sejamos muito práticos e não valorizemos demasiadamente
as instruções temáticas de enriquecimento
intelectual, mas que formemos os Noviços na vida fraterna
participativa para que se sintam livres somente quando praticam o amor
mútuo, que redunda num grande amor à humanidade. Essa
instrução elimina, por si só, os candidatos que
não tenham ingressado ali movidos pelo amor de Deus acima de
todas as coisas e a Jesus Cristo sem reservas e como dizia muito bem o
grande São Bento: “Nada se anteponha a Cristo”.
Sejamos irmãos, querendo o triunfo do outro. Criemos a paz
abrindo espaços para o amor fraterno. Deixemos de lado todas as
leis humanas e canônicas quando se trata de unir, congregar e
agrupar irmãos na caridade, pois “Temos de Deus este
mandamento: o que amar a Deus, ame
também a seu irmão”. ( I Jo. 4,21)
Dom Marcos de Santa
Helena osc.
Prior.
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