Olho
Biônico:
“Ao ser perguntado
Miguel Ângelo por que esculpiu o rosto de Nossa Senhora
tão jovem como o
do filho respondeu:”
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Enviado por Lailson
De Lima
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São compatíveis a Ciência
e a Fé?
Por Alfonso
Aguiló
O homem encontra a Deus por
trás de cada porta que a ciência consegue abrir.
Albert Einstein.
Para os que acreditam, Deus está no princípio. Para os
cientistas, Deus está no final de
todas as suas reflexões.
Max Planck
PODE
A CIÊNCIA
CONTROLAR-SE A SI MESMA?
O
físico alemão
Otto Hahn, inventor da fissão do átomo
de urânio, estava
internado num campo de concentração inglês,
junto com outros
eminentes cientistas. Quando,
em agosto
de 1945, recebeu a notícia
de que
Hiroshima tinha sido arrasada por uma bomba
atômica, sentiu um
profundíssimo sentimento
de culpa.
As suas pesquisas
sobre a fissão
do urânio tinham acabado por
ser
utilizadas para produzir
um massacre
terrível. Foi tal
a sua angústia
que tentou abrir
as veias nos arames
farpados que
cercavam o campo.
Depois
que os seus companheiros
conseguiram dissuadi-lo, o velho
professor fez-lhes,
desolado, a seguinte confissão: “Acabo de perceber
que a minha vida
não
tem mais sentido.
Pesquisei pelo puro
desejo de revelar
a verdade das coisas,
e todo o meu saber científico
acaba de se converter num enorme poder
aniquilador”.
A
experiência pessoal de Otto Hahn foi, na realidade,
a experiência amarga
de toda uma época.
Uma aflitiva impressão
de fracasso invadiu os espíritos de todos
os que tinham lutado com tanta
tenacidade por levar
o conhecimento científico
à máxima altura possível,
convencidos
de fazer com
isso um grande
bem à humanidade.
Tinham trabalhado penosamente com a profunda
convicção de
que
o aumento do saber
teórico e o incremento
da felicidade humana
estavam inequivocamente vinculados. Acreditavam que
fomentar o conhecimento
científico teria sempre um
valor positivo, que
significaria automaticamente cotas
mais elevadas de felicidade
e de dignidade. Pensaram que se tratava de um
bem inquestionável,
e que, portanto,
se traduziria indubitavelmente em
bem-estar e perfeição para
o homem.
Mas esse entusiasmo
plurissecular, que já tinha
aberto fendas
nas trincheiras
de Verdun,
ruiu estrepitosamente com os horrores
da Segunda Guerra
Mundial. O terrível poder destruidor
das armas nucleares, os
intensíssimos bombardeios
da população civil, o extermínio
sistemático e profundamente cruel
de toda
uma raça e um
saldo de cinqüenta milhões
de mortos puseram tragicamente
de manifesto que o saber teórico
pode traduzir-se num saber técnico,
e este, por
sua vez,
num amplo poder
sobre a realidade,
mas, por desgraça,
todo esse domínio
não leva
automaticamente a uma maior felicidade dos homens
se aqueles que
detêm esse poder não
possuem uma consciência ética proporcional
à sua responsabilidade.
Após séculos
de febril incremento
do saber científico,
a idéia de que
o progresso humano
é sempre contínuo
e não pode haver retrocesso
revelou-se uma farsa
irritante. O ideal do domínio científico
e a conseqüente forma
de humanismo desfizeram-se em pedaços
ao
entrarem em colisão com
a obstinada realidade
da história. Era patente
que o futuro não
devia
caracterizar-se por essa ingênua crença
no progresso como princípio
motor de uma civilização,
mas que era
preciso
alicerçá-lo em valores mais
altos
e seguros.
HISTÓRIA DE UMA
DESILUSÃO
O
psiquiatra
austríaco Viktor
Frankl, depois da sua experiência
pessoal em diversos
campos de concentração,
chegou à conclusão
de que não
foram
os ministérios nazistas
de Berlim os verdadeiros responsáveis
por aquelas atrocidades, mas
a filosofia
niilista do século XIX.
Se o homem é um simples
produto
de uma natureza mutável,
um simples
macaco evoluído, então,
da mesma forma
que o macaco
pode ser enjaulado num zoológico,
o homem pode ser
encarcerado num campo de extermínio. Se o homem
é um simples animal,
ainda que extraordinariamente
adestrado, e
fazemos sabonetes com gordura animal, por
que não fazê-los com gordura humana?
O
filósofo Edmund Husserl, esclarecido
pela falência
do mito do eterno progresso
por ocasião da Segunda
Guerra mundial – na qual
viu, entre outras coisas,
aquela racionalização perfeita
da matança em massa
de milhões
de inocentes –, percebeu claramente que
a ciência, por força
do seu método,
não
pode ser um
princípio motor da vida
humana. “O mundo da objetividade
científica –
escreveu – é um mundo
fechado e inóspito. A forma pela qual
o homem moderno,
na segunda metade
do século XIX, se deixou
determinar totalmente
pelas ciências
positivas e cegar pela
prosperity a elas devida, significou pôr
de lado as questões
decisivas para uma humanidade
autêntica. As ciências que
só
contemplam meros fatos
fazem com que
os homens só
enxerguem meros fatos”. Procurar
o conhecimento científico objetivo
das coisas é lícito
e fecundo. Mas
considerar esse
modo de conhecer
como modelo,
como a única forma
rigorosa de conhecimento, é uma parcialidade inaceitável, já
que
empobrece enormemente o homem.
A
Ilustração –
o Iluminismo – pretendia alcançar
o ideal renascentista
que sonhava entregar
o homem a si mesmo,
torná-lo livre,
permitindo-lhe viver sob
o império exclusivo
da razão. A esperança
de que o homem
atingiria a felicidade para sempre
num mundo já dominado e sem
segredos, por meio
de uma ciência que tudo
conheceria e tudo poderia, veio
a ser um
sonho que nunca
se
alcançaria e que o horror gigantesco
das duas Guerras
Mundiais converteu em algo pior
que um pesadelo.
O domínio
da realidade escapava ao molde estreito
do pensamento
racionalista. E o perigo não derivava da ciência em
si, mas dessa mentalidade
que levava a considerar que
só
se pode conhecer aquilo
que é
mensurável, controlável,
verificável, e a desprezar os aspectos
da realidade que
resistem a esse tipo
de controle e cálculo.
Essa pretensão de domínio sem
limites
deixava o homem numa situação de desamparo. Logo
se viu que
a ciência, que tinha
dominado com
o seu prestígio
o Século das Luzes, não
podia, por si só,
plenificar a vida
do homem. Não era
a sua missão.
A ciência não fala
de valores, de sentido,
de metas nem
de fins, e o ser
humano precisa
de tudo isso
para preservar
a sua dignidade
e ser feliz.
O
otimismo ilustrado previra horizontes paradisíacos,
mas a utopia científica
mostrou como nunca a sua
impotência.
Não há dúvida
de que o progresso científico
foi grande e que esse
desenvolvimento
é uma coisa boa, ou, pelo menos, não
tem por que
ser má. Mas,
hoje em dia,
muito poucos
acreditam que tudo isso
seja a panacéia, que possa fazer algo mais
do que transferir
a inquietação de uns temas para outros.
O domínio das coisas
é muito elevado, mas
necessita de um humanismo válido
que lhe dê
sentido. Porque, do contrário,
pode embriagar-se com os seus próprios
êxitos e crescer em direções aberrantes para a
dignidade do homem.
A
técnica permite desenvolver meios
de comunicação extremamente poderosos,
rápidos, atraentes, sugestivos...,
mas esses meios
podem ser uma arma
de primeira grandeza para manipular
as consciências, moldar as vontades
e os sentimentos
dos homens. A ciência precisa
de alguns limites para a sua pretensão
de soberania. Toda a grande
conquista traz consigo
uma inevitável
ambivalência: um avanço num aspecto
e um retrocesso
em outro,
talvez não menos
valioso. O aumento
de poder não
corre sempre paralelamente
ao aumento do domínio
do homem sobre esse
poder. A ciência
não
pode abandonar-se à sua própria dinâmica,
mas deve ser
regulada por
uma instância externa que
a oriente
e lhe dê
sentido.
O PROGRESSO CIENTÍFICO
IMPLICA UM DECLIVE RELIGIOSO?
A
Idade Moderna
começou por cultivar insistentemente
as questões
de método. Bacon, Descartes
e Spinoza, por exemplo,
concentraram a sua filosofia em
torno
da busca de um método
rigoroso que
lhes
permitisse chegar à certeza
e assentar a vida
sobre convicções
sólidas, inquebrantáveis,
inexpugnáveis.
Como
as ciências
avançam sobre dados seguros
e conferidos, verificados pela experiência, foram surgindo pensadores convencidos
de que, sempre
que
a ciência descobria um segredo,
a religião
dava um passo
atrás.
Parecia-lhes que
o progresso da ciência
reduzia inexoravelmente o domínio
do religioso, cada dia
mais
confinado. Em contraposição
ao que consideravam o crédulo espírito
medieval, o homem
moderno haveria de encontrar, apenas
com
a força da sua razão,
um método
sem fendas. E o grande
modelo do pensamento
autêntico era, para eles,
o saber matemático.
Se
se trabalha com a devida
lógica, articulando
bem os diversos
passos
do raciocínio –
afirmavam –, chega-se em matemática a conclusões
apodícticas, inquestionáveis.
A ordem
no raciocínio torna-se a
chave do pensamento
e do conhecimento retos.
E essa ordem é
estabelecida pela razão, pois
a razão é o grande privilégio
do homem. Por esse
caminho
– acabavam por concluir
–, o homem basta-se a si mesmo,
já que a razão
lhe
oferece recursos de sobra para descobrir
as leis da realidade
e conseguir um
rápido domínio sobre
ela.
Mas de
novo a passagem
do tempo veio a mostrar como esse
domínio só é possível
em termos
quantitativos, naquilo que
pode submeter-se a cálculo
e medida. Mas o espírito
escapa
ao método
matemático e à lógica
cartesiana. Ao possibilitar
a opção livre,
o espírito torna possíveis
muitas coisas que denunciam a insuficiência
do modelo racionalista.
Poderiam
citar-se muitos exemplos. Um
dos mais característicos
é a tentativa racionalista de explicar
a inteligência humana.
É difícil saber exatamente
o que
é o pensamento, mas,
se eu reduzo o problema
a uma questão de neurônios,
posso conseguir uma tranqüilizadora impressão de exatidão:
1.350 gramas de cérebro humano,
constituído por
100.000 milhões de neurônios, cada
um
dos quais forma
entre 1.000 e 10.000
sinapses e recebe a informação
que lhe chega
dos olhos através
de 1.000.000 de axônios acumulados no nervo
ótico. Por sua
vez, cada célula
viva pode ser
explicada pela química orgânica....
Deste modo,
posso pretender explicar
a inteligência num plano
biológico, a biologia em termos
de processos químicos
e a química em forma de matemática.
Pois bem, qualquer
leitor medianamente crítico
perguntar-se-á o que
têm a ver as porcentagens
de carbono e hidrogênio,
os neurônios e toda
a matemática associada
a esses processos,
com algo tão
humano
e tão pouco
matemático como conversar, entender
uma piada, captar
um olhar
de carinho ou compreender
o sentido da justiça.
A
ciência moderna, com
as suas descobertas
maravilhosas, com as suas leis
de uma exatidão assombrosa, oferece a tentação
– um empenho
que se deu em Descartes
com
uma força irresistível
– de querer conhecer
toda a realidade
com uma exatidão matemática.
Mas
costuma-se esquecer algo essencial:
que
a matemática é exata
à custa de considerar
unicamente os aspectos
quantificáveis da realidade. E reduzir toda
a realidade
ao
quantificável é uma notável
simplificação, é um
reducionismo.
Poderíamos replicar
como aquele velho
professor universitário,
quando um aluno
fazia alguma afirmação reducionista: “Isso
é como se eu lhe
perguntasse o que
é esta mesa, e você me
respondesse: cento
e cinqüenta quilos”. As grandezas matemáticas
prestaram e prestarão um
grande serviço
à ciência, e
à humanidade
no seu conjunto,
mas sempre
prestaram um péssimo serviço
quando
se quis empregá-las de um
modo exclusivista.
A
totalidade do real
nunca poderá ser expressa
só em cifras,
porque as cifras
expressam unicamente grandezas
e a grandeza é apenas
uma parte da realidade.
E não é questão
de dar mais
números ou com
mais decimais. Por
muitos ou muito
exatos que sejam, oferecem sempre
um conhecimento
notoriamente insuficiente. Você pesa
70 quilos, mas não
é 70 quilos.
E mede 1,83 metros, mas não
é 1,83 metros.
As duas medidas são
exatas, mas você
é muito mais que
uma soma exata
de centímetros
e quilos. As suas dimensões
mais
genuínas não são
quantificáveis: não
podem ser
determinadas numericamente as suas
responsabilidades, a sua liberdade
real,
a sua capacidade
de amar, a sua
simpatia por tal
pessoa ou
a sua vontade
de ser feliz.
Não querer reconhecer
uma realidade
alegando que não
pode ser medida
experimentalmente seria proceder mais ou
menos como um
químico que se negasse a admitir
as propriedades especiais
dos corpos radioativos sob
o pretexto
de que não
obedecem às mesmas leis que explicam o que
acontece com os outros corpos
já conhecidos.
Acima
da ciência há outra face
da realidade:
a mais importante,
e também a mais
interessante do ser humano,
aquela em que
aparecem aspectos tão pouco
quantificáveis como, por exemplo,
os sentimentos
– não é possível
pesá-los, mas nada pesa
mais
do que eles
na vida.
Um pensamento ou
um sentimento
não podem honestamente ser
qualificados como materiais. Não
têm cor, sabor ou
extensão,
e escapam a qualquer instrumento que
sirva para medir
propriedades físicas.
“Os fenômenos mentais
– afirma John Eccles, Prêmio Nobel de
Neurocirurgia –
transcendem claramente
os fenômenos da fisiologia
e da bioquímica”.
“A
ciência, apesar
dos seus progressos incríveis
– escreve
o médico e pensador
Gregorio Marañón –, não
pode nem poderá nunca explicar tudo. Cada
vez
ganhará mais terreno
no campo daquilo que hoje
parece inexplicável. Mas os limites
fronteiriços do saber, por muito longe
que
cheguem, terão sempre pela frente
um infinito
mundo de mistério”.
A FÉ
DESAPARECERÁ QUANDO A SOCIEDADE AMADURECER?
Em um de seus
livros, López
Quintás conta que um
dia, ao entardecer,
depois de visitar
a catedral de Notre-Dame, enquanto vagueava pela
velha Paris, deparou, sem querer, com um
pequeno edifício
abandonado, com as suas
sórdidas janelas cruzadas por
sarrafos
de madeira. Aquela construção quase
em ruínas
era
o famoso “Templo
da Nova Religião
da Ciência” que
o filósofo francês
Augusto
Comte tinha erigido fazia século e meio.
O contraste
foi tão brusco como
expressivo.
O templo com
o qual se pretendera dar culto
ao progresso científico estava em ruínas.
A velha catedral,
pelo contrário,
irradiava as suas melhores galas,
como na sua brilhante época medieval.
A música combinava nela com
a harmonia das linhas
arquitetônicas, com as
belas palavras dos oradores, com
o magnífico esplendor litúrgico
que num dia
de Natal, anos atrás,
emocionara o grande poeta Claudel, até
levá-lo à conversão.
A
história daquele templo esquecido está aparentada com
a da Ilustração, que no seu
tempo se ergueu com
o sonho de “despojar
o homem dos grilhões irracionais
das crenças
e conhecimentos supersticiosos baseados
na autoridade
e nos costumes”.
O pensamento ilustrado da Enciclopédia considerava os conhecimentos religiosos
como “simples
e ingênuas explicações
sobre a vida
dadas pelo homem
não-científico”. Na sua
aversão à fé,
uma multidão de pensadores
deleitava-se em atribuir
a origem mais baixa
possível
ao sentimento religioso.
Concebiam os nossos antepassados como
“seres
perpetuamente atemorizados, empenhados em
conjurar as forças
hostis do céu e da terra mediante
práticas irracionais”. Viam a Deus
como um simples
“produto do medo
das civilizações
primitivas, num tempo em que
esses espíritos
atrasados ainda acreditavam em fábulas”.
Sentiam-se
chamados a “libertar toda a humanidade
daquele lamentável estado
de ignorância”. A fé
acabaria por desaparecer
à medida que
a sociedade fosse amadurecendo. “A deusa Razão encostaria num canto
essa ignorância, iluminaria o caminho
e dirigiria com mão segura
os destinos
da humanidade”.
Pensavam
que a tendência que
levava a buscar nos
deuses uma razão
de existir pertencia a um estágio
primitivo
da vida humana,
destinado a dar passagem
ao pensamento filosófico
e, mais adiante,
a ceder o lugar
ao conhecimento científico, que
conferiria ao homem
a primazia absoluta
no Universo e o situaria na maioridade.
A
teoria de Comte sobre a evolução
humana através
dos três estados
– religiosidade, pensamento
filosófico e conhecimento
científico
– gozou na sua época
de grande aceitação
e em sua
honra foi erigido aquele templo
dedicado à “Nova Religião da Ciência”.
–
Não
é curioso que a ciência
adquirisse essa faceta religiosa?
Foi
efetivamente um curioso
fenômeno de substituição.
Fascinado pela ciência,
o homem elevou-a até ocupar
o lugar
do sagrado. Mas não
era um simples
conflito entre
a ciência e a fé. Com
efeito, entronizar
uma bonita mocinha parisiense
na catedral de Notre-Dame – como fizeram durante
a Revolução
Francesa –, dando-lhe o título
de “Deusa Razão”, não parece que
fizesse parte das ciências
experimentais. Por trás
de tudo aquilo
latejava o empenho ateu
de proclamar a salvação da humanidade por
si mesma,
e o advento
de uma sociedade iluminada unicamente pela razão
humana.
Passaram-se
menos de dois
séculos, e o estado de abandono
em que
se encontra hoje aquele
templo laico é talvez
um fiel
reflexo do abandono
da concepção do homem que
tanta força teve na sua
época. Aquela ilusão segundo
a qual
o advento da era científica
permitiria eliminar
o mal do mundo
acabou por ser
um doloroso
engano. As suas hipóteses
acabaram por estar
mais
impregnadas de ingenuidade do que
a que eles
atribuíam às épocas
históricas anteriores.
A CIÊNCIA PODE
EXPLICAR TUDO?
Um olhar sobre
o progresso científico com
um pouco
de perspectiva histórica
deixa-nos espantados com a rapidez com
que as máquinas são
ultrapassadas e vão parar nos museus. Muitas
afirmações das revistas
científicas atuais
provavelmente serão motivo de riso
ou
de assombro para
as gerações
futuras, talvez em menos
tempo ainda.
A
história da ciência adverte-nos, com teimosa
insistência, sobre um
fato irrefutável:
poucas teorias
científicas conseguem
manter-se em pé, mesmo
que por poucos
séculos; muitas vezes, só
por alguns anos;
e em alguns
casos, menos ainda.
A maioria
das afirmações da ciência
vão sendo
substituídas, uma atrás
da outra, pouco
a pouco, por
outras explicações
mais
complexas e mais fundamentadas
dessa mesma realidade.
Eram hipóteses tidas como certas
durante
uma série de anos, ou
de séculos,
e que um
dia se descobre que
estão superadas. Umas vezes,
são englobadas dentro
de teorias mais
completas, das quais a antiga hipótese
é um corolário ou
um simples
caso particular. Outras,
ficaram obsoletas e
desapareceram por completo
do âmbito científico.
A postura própria
da ciência experimental
deve ser, portanto,
extremamente cautelosa
nas suas
afirmações.
“Uma cilada
perniciosa – escrevia John
Eccles pouco depois de ter
recebido o Prêmio Nobel pelas suas pesquisas
em neurocirurgia
– surge da pretensão
de alguns cientistas, mesmo
eminentes,
de que a ciência não
demorará
a proporcionar
uma explicação completa
de todos os fenômenos
do mundo natural
e de todas as nossas experiências
subjetivas. É uma pretensão extravagante
e falsa, que
foi qualificada ironicamente por
Popper como «materialismo
promissório».
“É importante
reconhecer que,
mesmo que um
cientista
possa manifestar essa pretensão,
não se comportaria como cientista,
mas como um
profeta mascarado de cientista. Isso
seria cientificismo, não ciência,
embora impressione fortemente
os profanos que
pensam que a ciência
produz de forma incontroversa
a verdade.
“O cientista
não deve pensar que
possui um conhecimento certo
de toda a verdade.
O máximo que nós,
os cientistas,
podemos fazer é chegar
mais perto de um
entendimento verdadeiro dos fenômenos
naturais mediante
a eliminação de erros em
nossas hipóteses.
É da maior importância para
os cientistas que apareçam perante
o público como
o que realmente
são: humildes
buscadores da verdade”.
Em contrapartida, a imodéstia
costuma caminhar a par
da ignorância. A
auto-suficiência com que alguns
falam reflete uma atitude muito pouco
científica, pois
os cientistas sensatos nunca
conferem a categoria
de dogma às suas hipóteses.
O cientificismo orgulhoso prestou sempre
um péssimo
serviço ao rigor
da verdadeira ciência.
CIENTISTAS QUE PONTIFICAM SOBRE FILOSOFIA?
Os cientistas
sensatos – além
de se vigiarem a si mesmos para não
se
converterem em personagens dogmáticos
–
procuram basear sempre
as suas
afirmações científicas em
comprovações
que
sigam com rigor
o método científico.
Cuidam, pois, de não
impor como
científicas afirmações que,
no fundo, se apóiam
propriamente em razões de ordem
filosófica.
–
Penso que, se são
cientistas, o que
dizem estará baseado no método científico,
que
é aquele que
conhecem, não é assim?
Certamente, a maioria dos cientistas
comporta-se desse modo, e com grande
honestidade. Mas
há alguns que são
menos honestos nas suas
afirmações, embora,
às vezes – para desprestígio
da verdadeira ciência
–, sejam mais conhecidos nos
meios
de comunicação. São figuras
que
têm uma certa habilidade para
meter-se furtivamente
no vizinho campo
da filosofia. E isso não
nos
deve estranhar, pois
já dizia Einstein que todo
o pesquisador científico é
uma espécie
de metafísico
disfarçado, por mais positivista
que
se considere.
–
Mas têm todo o direito
do mundo de filosofar,
se assim o desejam, não
é?
Sem dúvida. Nem
as ciências especulativas
nem
as experimentais entendem de exclusivismos.
Estão abertas a todos. Mas
em
todas se deve exigir que
se cumpram as regras e o método próprios
da ciência em que
se está
trabalhando. Não
é legítimo que se pretenda impor
especulações
filosóficas em nome do método
científico.
Se
alguém, como cientista
experimental,
faz uma
afirmação científica,
deve fornecer dados
empíricos que
avalizem essa afirmação. Se a afirmação não
é experimental, mas especulativa,
deve fornecer as razões
necessárias de acordo com as normas
de um bom
trabalho filosófico. Mas não
goza
de nenhum privilégio
nesse campo, por mais
que
seja um bom
cientista. O que não
seria lícito
é que fizesse conjecturas
derivadas da razão e as
apresentasse como demonstradas
experimentalmente. E isso
é o que
fazem alguns, que,
dando um pulo
sigiloso, se metem de roldão em campo
alheio,
e falam dali querendo fazer-nos ver que falam de outro
lugar.
–
Quer dizer,
é como um pretexto
para fugir
ao método científico.
Exato. E não é que
o
façam todos nem
continuamente. Fazem-no apenas alguns e em
algumas ocasiões, e,
às vezes, sem que
eles mesmos o percebam. O problema
é que costumam mover-se
aos tropeções no campo
da filosofia e passeiam por ela
como um rinoceronte
numa loja
de porcelanas, fazendo conjecturas filosóficas bastante
curiosas.
–
De qualquer maneira, também
não é mau fazer conjecturas
de vez em
quando. Não
havemos de estar sempre
limitados ao estritamente
demonstrado.
Com certeza. Mas
então é preciso distinguir
bem entre
as conjecturas
e as afirmações da ciência.
Assim como, por
exemplo, por um
princípio ético elementar
os profissionais
dos meios de comunicação
devem distinguir o que
é propriamente a notícia
do que é a sua opinião
sobre
essa notícia, os cientistas
têm o dever de fazer
também essa distinção entre o que
comprovaram cientificamente e o que
é mera especulação pessoal.
DEMONSTRAR QUE DEUS
NÃO EXISTE?
Narrando
a história da sua conversão,
o professor de Oxford C.S. Lewis explicava como foi que
percebeu,
num momento concreto
da sua vida,
que o seu racionalismo
ateu
da juventude se baseava inevitavelmente no que ele
considerava como as grandes descobertas
das ciências.
E o que os cientistas
apresentavam como certo, ele
o assumia sem conceder o menor
espaço à dúvida.
Pouco
a pouco, à medida que
ia amadurecendo o seu pensamento,
espatifava-se, uma e outra vez, contra
um escolho
que não
conseguia superar. Ele
não era cientista.
Tinha, portanto, que
aceitar essas descobertas por
confiança, por autoridade...,
como se fossem, em última
análise, dogmas de fé
científicos. E isso
ia frontalmente contra
o seu racionalismo.
Relatava-o
passados anos, espantando-se com
a ingenuidade da sua juventude. Sem
quase saber
por quê, vira-se
envolvido numa credulidade que agora lhe
parecia humilhante. Sempre tinha acreditado,
às cegas, em
praticamente tudo o que
aparecesse escrito em letra
impressa
e assinado por um cientista.
“Na época, ainda
não
fazia a menor idéia
– dizia – da quantidade de tolices que
existem no mundo escritas e impressas”. Agora parecia-lhe que
essa candura juvenil
o tinha arrastado a uma inocente aceitação
rendida
de um dogmatismo
mais forte que
aquele
do qual estava fugindo. Os cientistas, aos olhos
do grande público,
têm em seu favor uma grande vantagem:
o enorme complexo de inferioridade que o homem
comum sente perante
a ciência.
–
E se a ciência demonstrar um
dia que Deus
não
existe? Porque muita gente
pensa que chegará um
dia em que
a ciência
conseguirá prescindir do que
chamam a hipótese de Deus, forjada nos
obscuros séculos
da ignorância...
É
um velho
temor que
surge, às vezes, mesmo entre
os que
crêem, excitado pela força divulgadora do ateísmo científico.
No entanto,
o temor do crente perante
a ciência não faz nenhum
sentido. Se demonstrar com
seriedade
a existência de Deus
pode ser uma tarefa
trabalhosa para
a filosofia, demonstrar
a sua inexistência
é para a ciência
uma tarefa impossível.
O
objeto da ciência
é só o
observável e o mensurável, e Deus
não é nem uma coisa nem outra.
Para demonstrar
que Deus não
existe, seria preciso, como vimos, que
a ciência descobrisse um primeiro elemento que
não tivesse causa, que
existisse por si mesmo,
e cuja presença
explicasse tudo o mais sem
deixar nada
de fora. E
se pudesse descobri-lo – o que não conseguirá, porque
está fora do seu âmbito
de conhecimento
–, seria precisamente isso que
nós chamamos Deus.
Robert Jastrow, diretor
do Goddard Institute of Space Studies, da NASA, e grande conhecedor
dos últimos avanços científicos
relacionados com a origem
do Universo, dizia: “Para
o cientista que
passou a vida acreditando no
ilimitado poder da razão,
a história da ciência
desemboca num pesadelo. Escalou
a montanha da ignorância,
e
está a ponto de conquistar
o cume mais
alto. E quando
está subindo o último penhasco,
saem para lhe
dar as boas-vindas um monte
de teólogos que estavam sentados lá
em cima
faz muitos séculos”.
CIENTISTAS QUE CRÊEM?
–
Alguns
estão
persuadidos de que a ciência e a fé
são incompatíveis.
Dizem, como Laplace, que “Deus
é uma hipótese da
qual não têm
nenhuma necessidade”.
E afirmam que são precisamente
os cientistas quem costuma negar
que se possa conhecer
a Deus.
É
verdade que
alguns cientistas
pensam assim. No entanto,
muitíssimos outros – de indubitável e reconhecido prestígio
– não hesitam em afirmar que
crêem, e não lhes
parece que a fé
seja de maneira nenhuma um empecilho
para as suas
pesquisas; pelo contrário,
afirmam que
a verdadeira ciência, quanto mais
progride, mais descobre a Deus. Os conflitos
entre a fé
e a razão foram sempre
causados pela ignorância
dos defensores de um ou
de outro lado.
O
próprio Albert Einstein, por exemplo,
autor da teoria
da relatividade, afirmava que
“a religião sem a ciência
estaria cega,
e a ciência sem
a religião estaria coxa”.
Newton
afirmava que “há um ser inteligente e poderoso...
que governa todas as coisas
não como
a alma do mundo, mas
como Senhor
do Universo,
e, por causa
do seu domínio,
é chamado Senhor Deus,
Pantocrator”.
O
famoso prêmio
Nobel alemão Werner K. Heisenberg, um dos principais
criadores da Mecânica
Quântica e formulador do conhecido
Princípio da Indeterminação que leva
o seu nome,
ao passar por
Madrid em 1969 afirmava: “Creio
que Deus existe
e que dEle procede tudo.
A ordem e a harmonia
das partículas
atômicas têm que ter sido impostas por
alguém”.
Max
Planck, outro alemão
ganhador do prêmio
Nobel, que formulou a teoria dos quanta,
é ainda mais explícito:
“Em todos
os lugares
e por mais
longe que
dirijamos o nosso olhar, não
somente não
encontramos nenhuma contradição
entre a religião
e a ciência, mas precisamente
um pleno
acordo nos pontos
decisivos”.
Von
Braun, que conseguiu levar o primeiro homem à Lua,
assegurava que “quanto mais
compreendemos a complexidade da estrutura
atômica, a natureza
da vida ou
a estrutura das galáxias, mais
encontramos novas razões para
nos
enchermos de admiração
perante os esplendores
da Criação divina”.
O físico
britânico Paul Davies
assegura que a ciência não
pode responder
às questões
últimas, e que tem de existir algum
plano superior capaz
de explicar a vida
humana. Para
Davies, “é totalmente inviável atribuir
a existência do homem
ao simples jogo acidental
de forças cegas da natureza:
a espantosa racionalidade
da natureza – com um
grau
verdadeiramente incrível
de organização em diferentes
níveis que se entrecruzam e
complementam – não pode ser fruto
de simples acasos”.
Alexis
Carrel, prêmio Nobel de Medicina, inicialmente
um positivista incrédulo,
mas
convertido mais tarde
ao catolicismo, foi testemunha direta
em
Lourdes de uma cura instantânea
e inexplicável, e dizia:
“Pouco espírito
de observação e
muitas teorias levam ao erro. Muita
observação
e poucas teorias levam à
verdade”.
A multiplicação
deste tipo de testemunhos tão
qualificados
acabou por provocar
uma reviravolta contra
essa mentalidade de agnosticismo
cientificista. É como se
os agnósticos tivessem
subestimado o poder
da inteligência humana para chegar
a Deus através
da ciência. Um editorial
da revista Time
comentava com espanto
essa mudança dentro
do mundo científico:
“Através de uma silenciosa revolução
no pensamento
e na argumentação
– uma revolução impensável
faz vinte anos –, é como
se Deus estivesse preparando a sua volta”.
A RAZÃO PRECISA DA FÉ?
O combate que o homem
trava contra o mal
excede infinitamente
os meios da razão
e da ciência. É o que
demonstram fatos tão atuais
como
o racismo, a droga
ou o álcool. Ou
como todos esses
terríveis crimes
cometidos por totalitarismos ateus
sistemáticos
e pretensamente científicos
ao longo do século
XX: desde o genocídio nazista
de Hitler até
o de Pol Pot no Camboja, passando pelos
do leninismo, do stalinismo ou
do
maoísmo.
O pior
é que a maior parte
desses crimes em massa
foram cometidos em nome
de teorias que,
na sua época,
receberam o aplauso de milhões de pessoas.
Foram autênticos infernos
fabricados por homens que
procuravam um mundo perfeito
que se bastasse a si mesmo
e já não tivesse necessidade
de Deus.
E assim
como, lendo Lênin,
se podia notar que
os direitos
do indivíduo não
iam ser respeitados num sistema comunista,
do mesmo modo, estudando as premissas
da Ilustração,
viu-se claramente que
a Modernidade não
atenderia às necessidades
globais
do ser humano.
Não basta
a razão para que
uma sociedade seja justa,
solidária
e equilibrada. Para que
haja equilíbrio na pessoa
e na sociedade, é preciso atender,
juntamente com a razão,
à vontade e à sensibilidade.
A pessoa e a sociedade
devem ter por
objetivo procurar
o bem, a verdade
e a beleza; e isso
significa falar de vontade, inteligência
e sentimentos;
e, por sua
vez, de ética,
de ciência e de arte. Quando
se idolatra um método da inteligência,
como é a razão, sem
elevar
à sua altura a ética
e a estética,
desequilibram-se o indivíduo
e a sociedade. Esse
foi o fracasso da Ilustração.
Fracassou
por ter
pensado que da razão deriva
automaticamente a ética,
coisa que
se demonstrou falsa
ao ser confrontada com
a realidade. A razão
não pode ser salva pela razão.
Isso
seria ilusório. Esses crimes
demonstraram o que o homem
pode chegar a fazer.
E
vimos como a razão não
os impediu.
Os
ilustrados pensavam que,
mostrando ao homem o que é racional,
este o adotaria, e a razão seria suficiente
para organizar
a sociedade. Mas
não foi assim. Não
basta proclamar
o que é racional para que os homens
o
pratiquem.
O comportamento
humano está cheio
de sombras e de matizes alheios
à razão, que desembestam cada
qual por sua
conta
movendo as molas da vontade
e do coração. Reconhecer
os perigos que
a razão encerra
– afirma Jean-Marie Lustiger – é salvar
a sua honra.
Conceber a razão
como a grande soberana,
independente do bem
que o homem deve procurar,
é mais ou menos
como
pôr-se nas mãos de
um computador:
é um instrumento muito
capaz, processa grande
quantidade
de dados que toma
do exterior, todo o seu
desenvolvimento é perfeitamente lógico,
mas alguém tem de garantir
que está bem
programado. A verdadeira fé
é um guia insubstituível,
pois a razão
pode extraviar-se.
Não quero, com isto, menosprezar
a razão, antes pelo contrário. A razão
é uma das mais nobres capacidades
que
distinguem a espécie humana, e alegra-nos ver
os seus triunfos,
bem como
as conquistas da ciência
e a sua luta
por construir
um mundo
melhor. Mas
convém nunca esquecer
a limitação humana,
e igualmente a ordem natural
imposta por Deus,
que permite ao homem preservar
a sua dignidade
e evitar muitos
erros.
A
história
está cheia de cadáveres
ideológicos, e ninguém
acha estranho
encontrá-los perfeitamente
alinhados quando olha
para trás
com a disposição
de aprender. E, entre
eles, espalhados ao longo
dos séculos, pode-se ver toda
uma legião
de profetas que
foram anunciando – sobretudo nos últimos
duzentos anos
– o próximo e definitivo
desaparecimento da religião
e da Igreja.
No
entanto, a história mostra
que são precisamente
aqueles que, com
tanta paixão,
lançam essas condenações
e essas profecias os que
desaparecem uns após outros, enquanto
a Igreja
continua adiante depois
de dois mil
anos, e a religiosidade
continua a ser
uma constante em
todas as civilizações
de todos os tempos.
A Igreja, que
presenciou catástrofes que varreram impérios
inteiros, testemunha pela
sua mera subsistência
a força que
palpita nela. “Os povos passam
–
observava Napoleão –, os tronos
e as dinastias desmoronam-se, mas
a Igreja permanece”. É
uma realidade que
leva a pensar
que o fato religioso
faz parte
da natureza do homem,
e que a Igreja
está animada de um espírito
que não é de origem humana.
Alfonso
Aguiló
Fonte:
É razoável crer?
Quadrante. São
Paulo, 2006. Pág 26-44.
(1)
Uma das batalhas mais
cruentas da Primeira Guerra Mundial (N. do E.).
Karl Popper (1902-1994), a maior autoridade em filosofia
da ciência do século
XX (N. do E.).
Sobre este tema,
e outros testemunhos de cientistas,
ver Jorge Pimentel Cintra, Deus
e os cientistas, Quadrante, São
Paulo, 1990 (N.
do E.).
Enviado por:
Cléber Eduardo dos Santos Dias
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"Judica me, Deus, et discerne causam
meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me",
Psalm 42.
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