![]() |
![]() |
![]() |
|||||||||||||||||||||||||||||
| Ano: IV Edição: Mensal N°: XLIII Mês: Maio de 2007. | |||||||||||||||||||||||||||||||
| Informativo Oficial da Congregação Monástica de Santa Cecilia | |||||||||||||||||||||||||||||||
|
|
|||||||||||||||||||||||||||||||
|
Olho Biônico: Vale a pena conhecer esse
ilustrativo artigo/reportagem sôbre "a causa primeira" da
evolução da humanidade - chamada de
Civilização Cristã - ressaltando a
importância dos MOSTEIROS ao longo dos séculos D.C.
A Imprensa Moderna - contaminada pelo secularismo, humanismo, liberalismo e outros ïsmos"- não quer nem ouvir falar disso...
--------------------------------------------------------------------------------- Sem
a Igreja Católica não haveria Civilização
Ocidental
Conceituados
especialistas americanos e europeus vêm mostrando que sem a Santa
Igreja a civilização européia, berço da
Civilização Ocidental e Cristã, não teria
visto a luz. E apresentam a gênese, o desenvolvimento, o
esplendor e a glória da Civilização Cristã. Luis
Dufaur
No
auge da Idade Média, os cruzados derramaram seu sangue para
libertar das mãos dosinfiéis o sepulcro de Nosso Senhor
Jesus Cristo e instituir um reino cristão na Terra Santa. Hoje a
situação parece invertida. São os muros em
ruínas da “cidadela cristã” que importa defender contra o
neopaganismo revolucionário que as assalta: a criança por
nascer, ameaçada pelo aborto; o casamento segundo a Lei de Deus,
substituído pelo “amor livre”; a propriedade privada, que os
preceitos divinos amparam, golpeada pelo socialismo; a cultura
católica atropelada pela Revolução
Cultural. Em síntese, os restos da
Civilização Cristã são hostilizados,
proscritos, demolidos. Chega-se a pregar que os católicos devem
desistir da restauração dela, pois seria um sonho
impossível! Porém,
nesse auge do materialismo e da impiedade, uma nova
geração de historiadores, arquitetos, economistas e
cientistas, sobretudo nos Estados Unidos, começa a voltar-se
para o estudo consciencioso do que está sendo demolido.
Nauseados pelos horrores a que nos tem conduzido a
negação da Cristandade, eles constataram que a
civilização ocidental jamais teria visto a luz do dia se
não existisse a Igreja Católica. Esses estudiosos
têm publicado uma série de trabalhos nos quais procuram
restabelecer a objetividade histórica. Tal
recuperação da verdade apresenta uma tese central: a
civilização ocidental é a única que merece
plenamente esse nome. Os povos que outrora ocuparam a Europa — gregos,
romanos, celtas, germanos e outros — deixaram sua
contribuição. Mas a alma, o espírito, a
essência da civilização européia e
cristã provêm da Igreja. Como
chegaram eles a essa conclusão? Eis o objeto deste artigo, que
representa uma viagem pela gênese, desenvolvimento, esplendor e
glória da Civilização Cristã. Convite
aos fiéis a aprofundar racionalmente as verdades da fé
O
historiador Rodney Stark(1) colocou o problema: na História
houve apenas uma civilização que saiu do nada, para
acabar sendo hegemônica: a ocidental. Existiram, sem
dúvida, outras grandes civilizações: chinesa,
egípcia, caldéia, indiana, etc. Elas todas se iniciaram
num alto nível, ficaram porém estagnadas e
decaíram lenta mas irreversivelmente ao longo dos
milênios. Por que não cresceram como a ocidental e
cristã? Stark indica
como causa dessa diferença capital entre a
civilização cristã e as outras o papel
desempenhado pela Igreja Católica. As religiões
pagãs, diz ele, originaram-se de lendas fantásticas
impostas sem explicação. Só a Religião
católica convida os fiéis a aprofundar racionalmente as
verdades da fé. Já no século II Tertuliano
ensinava que “Deus, o Criador de
todas as coisas, nada fez que não fosse pensado, disposto e
ordenado pela razão”. Clemente de Alexandria, no
século III, insistia: “Não
julgueis que o que nós dissemos deve ser aceito só pela
fé, mas deve ser acreditado pela razão”. Santo
Agostinho consagrou tal ensinamento, e Santo Tomás, com suas Summas, levou-o a um
píncaro.(2)
Além
do mais, os mitos abstrusos do paganismo degradam seus próprios
seguidores. Basta olhar para os pagãos da Índia, que
despejam sobre um ídolo leite, especiarias e moedas de ouro de
que podem ter necessidade, como se vê na foto. Os monges
medievais aplicaram a lógica racional à vida quotidiana e
criaram uma regra de vida. Surgiram então prédios de uma
beleza até então desconhecida; o trabalho foi dignificado
e organizado; surgiram escolas de todo tipo; códigos civis e
comerciais, leis internacionais, hospitais, fábricas,
invenções, remédios eficazes; vinhos e licores,
etc. A vassalagem do monge em relação ao abade e as
relações das abadias entre si inspiraram a
organização política feudal. Uma força de
elevação e requinte foi transmitida pela Igreja à
sociedade no transcurso de gerações, e ergueu-se assim o
mais formidável e esplendoroso edifício civilizador da
História. Historiadores
rejeitam os mitos anticatólicos e antimedievais
O Prof.
Thomas E. Woods é um dos integrantes mais recentes dessa
corrente de investigadores.(3) Ele deplora ouvir ainda hoje surradas
cantilenas contra a Idade Média. Nenhum historiador profissional
honesto, diz ele, acredita nelas. E acrescenta: “Durante os últimos cinqüenta
anos, virtualmente todos os historiadores da ciência [...]
vêm concluindo que a Revolução Científica se
deve à Igreja” (p. 4). Não é só
devido ao ensino, mas pelo fato de a Igreja ter gerado cientistas como
o Padre Nicolau Steno, pai da geologia; Padre Atanásio Kircher,
pai da egiptologia.
Padre
Giambattista Riccioli, que mediu a velocidade de
aceleração da gravidade terrestre; Padre Roger Boscovich,
pai da moderna teoria atômica, etc; Réginald
Grégoire, Léo Moulin e Raymond Oursel mostraram que os
monges deram “ao conjunto da
Europa [...] uma rede de fábricas-modelo, centros de
criação de gado, centros de escolarização,
de fervor espiritual, de arte de viver, [...] de disponibilidade para a
ação social — numa palavra, [...] uma
civilização avançada emergiu das ondas
caóticas da barbárie que os circundava. Sem dúvida
nenhuma, São Bento foi o Pai da Europa. Os beneditinos, seus
filhos, foram os pais da civilização européia” (p.
5).
A Igreja
instituiu, na ordem temporal, o Sacro Império Romano
Alemão na pessoa de Carlos Magno, rei dos francos. Ele deu um
impulso incomparável à educação e às
artes. Nessa obra educadora sobressaiu Alcuíno [foto 4],
conselheiro íntimo de Carlos Magno, pupilo de São Beda, o
venerável, e abade do mosteiro de Saint Martin em Tours. Falando
da biblioteca de sua abadia em York, Alcuíno menciona obras de
Aristóteles, Cícero, Lucanus, Plínio, Statius,
Trogus Pompeius e Virgílio.
O
bem-aventurado Papa Vítor III, que foi abade de Montecassino, na
Itália, patrocinou a transcrição de obras de
Horácio, Sêneca e Cícero. Santo Anselmo, quando
abade de Bec, na Inglaterra,recomendava Virgílio e outros
clássicos a seus estudantes, mas prevenia-os contra as passagens
imorais. Num exercício escolar de Santo Hildeberto, encontramos
excertos de Cícero, Horácio, Juvenal, Persius,
Sêneca, Terêncio e outros. Santo Hildeberto, aliás,
conhecia Horácio praticamente de memória.
Inovação
material decisiva foi a minúscula
carolíngia. Antes dela os manuscritos não
tinham minúsculas, pontuação ou espaços em
branco entre as palavras. A minúscula
carolíngia, com sua “lucidez e sua graça
insuperável, apresentou a literatura clássica num modo
que todos podiam ler com facilidade e prazer” (p. 14). O
medievalista Philippe Wolff equipara este desenvolvimento à
invenção da imprensa. O
fácil acesso ao latim abriu as portas ao conhecimento dos Padres
da Igreja e dos clássicos greco-romanos. Pois é mito
falso que os grandes autores da Antiguidade só vieram a ser
resgatados pela Renascença, época histórica que
iniciou o multissecular processo revolucionário que em nossos
dias atingiu um clímax. Lord Kenneth
Clark mostrou que “só
três ou quatro manuscritos antigos de autores latinos existem
ainda; todo nosso conhecimento da literatura antiga se deve à
coleta e cópia que começou sob Carlos Magno, e quase todo
texto clássico que sobreviveu até o século VIII
sobrevive até hoje!” (p. 17). A
coletiva aspiração medieval pela Cristandade
Esses
avanços culturais brotaram de almas que aspiravam, sob o influxo
da graça divina, ao triunfo do ideal católico no mundo,
observa Woods. Alcuíno
traduziu essa apetência coletiva em carta a Carlos Magno: "Uma nova Atenas será criada na
França por nós. Uma Atenas mais bela do que a antiga,
enobrecida pelos ensinamentos de Cristo, superará a sabedoria da
Academia. Os antigos só têm as disciplinas de
Platão como mestre, e eles ainda resplandecem inspirados pelas
sete artes liberais, mas os nossos serão mais do que
enriquecidos sete vezes com a plenitude do Espírito Santo e
deixarão na sombra toda a dignidade da sabedoria mundana dos
antigos” (p. 19). São
João Crisóstomo narra que o povo de Antioquia enviava os
filhos para serem educados pelos monges. São Bento instruiu
filhos da nobreza romana. São Bonifácio e Santo Agostinho
ordenaram a seus religiosos criar estabelecimentos de ensino por toda
parte. São Patrício desenvolveu a
alfabetização na Irlanda. Concílios
locais, como o sínodo de Baviera (798) e os concílios de
Châlons (813) e Aix (816), ordenaram que se fundassem casas de
ensino. Theodulfo, bispo de Orleans e abade de Fleury, exortava: “Em aldeias e cidades, os sacerdotes devem
abrir escolas. [...] Que não peçam pagamento; e se
recebem algo, que sejam somente pequenos presentes oferecidos pelos
pais” (p. 20). Que diferença a com a nossa
época, em que freqüentemente a educação
pública é calamitosa e a educação privada
é cara! Do
caos à civilização: obra beneditina
No Oriente
houve santos ermitões que poucas vezes comiam ou dormiam, outros
ficavam em pé sem movimento semanas a fio, ou encerravam-se em
túmulos durante anos. São vocações
especiais. No Ocidente, o monaquismo foi estruturado por São
Bento de Núrsia. Sua regra é de uma
moderação e de um senso da ordem admiráveis. Os monges
tinham devoção pelos livros e embelezavam os manuscritos,
especialmente as Escrituras, com artísticas iluminuras.
São Bento Biscop, fundador do mosteiro de Wearmouth
(Inglaterra), mandava trazer livros de toda parte. São
Maïeul, abade de Cluny (na França), viajava sempre com um
livro à mão. São Hugo de Lincoln, prior de Witham,
primeira cartuxa na Inglaterra, explicou: "Nossos livros são nossa
delícia e nossa riqueza em tempos de paz, nossas armas ofensivas
e defensivas em tempo de guerra, nosso alimento quando temos fome, e
nosso medicamento quando estamos doentes" (p. 43). Criação
das universidades na época medieval
Muitos ainda
repetem o velho “chavão” de que a Idade Média foi uma
época de trevas, ignorância, superstição e
repressão intelectual. Mas não é preciso ir muito
longe para provar o contrário. Basta considerar uma das
máximas realizações medievais: as universidades
[foto 1]. Aliás, foi um aporte exclusivo à
História. Nem Grécia ou Roma conheceram algo parecido. A
Cátedra de Pedro foi a maior e mais decidida protetora das
universidades. O diploma de mestre, outorgado por universidades como as
de Bolonha, Oxford e Paris, dava direito a ensinar em todo o mundo. A
primeira que ganhou este poder foi a de Toulouse, na França, das
mãos do Papa Gregório IX, em 1233. A Igreja
protegeu os universitários com os benefícios do clero. Os
estudantes da Sorbonne dispunham de um tribunal especial para ouvir
suas causas. Na bula Parens
Scientiarum, Gregório IX confirmou à
Universidade de Paris o direito a um governo autônomo e a fixar
suas próprias regras, cursos e estudos. Também a
emancipou da tutela dos bispos e ratificou o direito à cessatio — a greve das aulas —
se os seus membros fossem objeto de abusos, como aluguéis
extorsivos, injúrias, mutilação e prisão
ilegal. Os Papas intervinham com força, a fim de que os
professores fossem pagos dignamente. Completados
os estudos, o novo mestre era oficialmente investido. Em Paris, isso
ocorria na igreja de Santa Genoveva, padroeira da cidade. O novo mestre
ajoelhava-se diante do vice-chanceler da Universidade, que pronunciava
esta bela fórmula: "Eu,
pela autoridade com que fui revestido pelos Apóstolos Pedro e
Paulo, vos concedo a licença de ensinar, comentar, disputar,
determinar e exercer outros atos magisteriais seja na Faculdade de
Artes de Paris, seja em qualquer outra parte, em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo. Amem” (p. 56). Os
mosteiros levaram a agricultura a patamar nunca visto
Para Henry
Goddell, presidente do Massachusetts
Agricultural College, os monges salvaram a agricultura
durante 1.500 anos. Eles procuravam locais longínquos e
inacessíveis para viver na solidão. Lá, secavam
brejos e limpavam florestas, de maneira que a área ficava apta a
ser habitada. Novas cidades nasciam em volta dos conventos. O terreno em
torno da abadia de Thorney, na Inglaterra, era um labirinto de
córregos escuros, charcos largos, pântanos que
transbordavam periodicamente, árvores caídas,
áreas vegetais podres, infestados de animais perigosos e nuvens
de insetos. A natureza abandonada a si própria, sem a mão
ordenadora e protetora do homem, encontrava-se no caos. Cinco
séculos depois, William de Malmesbury (1096-1143) descreveu
assim o mesmo local: "É
uma figura do Paraíso, onde o requinte e a pureza do Céu
parecem já se refletir. [...] Nenhuma polegada de terra,
até onde o olho alcança, permanece inculta. A terra
é ocultada pelas árvores frutíferas; as vinhas se
estendem sobre a terra ou se apóiam em treliças. A
natureza e a arte rivalizam uma com a outra, uma fornecendo tudo o que
a outra não produz. Oh profunda e prazenteira solidão!
Foste dada por Deus aos monges para que sua vida mortal possa
levá-los diariamente mais perto do Céu!” (p.
31). Mais tarde o protestantismo reduziu Thorney a ruínas, mas
estas ainda emocionam os turistas. Aonde
chegavam, os monges introduziam grãos, indústrias,
métodos de produção que o povo nunca tinha visto
[foto 2]. Selecionavam raças de animais e sementes, faziam
cerveja, colhiam mel e frutos. Na Suécia, criaram o
comércio de milho; em Parma, o fabrico de queijo; na Irlanda,
criações de salmão; por toda parte plantavam os
melhores vinhedos. Até descobriram a champagne! Represavam a
água para os dias de seca. Os mosteiros de Saint-Laurent e
Saint-Martin canalizavam água destinada a Paris. Na Lombardia,
ensinaram aos camponeses a irrigação que os fez
tão ricos. Cada mosteiro foi uma escola para explorar os
recursos da região. Seria muito
difícil encontrar um grupo, em qualquer parte do mundo, cujas
contribuições tivessem sido tão variadas,
tão significativas e tão indispensáveis como a dos
monges do Ocidente na época de miséria e desespero que se
seguiu à queda do Império Romano. Quem mais na
História pode ostentar semelhante feito? –– pergunta Woods(p.
45). Dignificação
do trabalho manual
Disseminou-se
que as escolas socialistas do século XIX recuperaram a dignidade
do trabalho manual. Nada mais falso. No paganismo, os bárbaros
viviam da caça e do saque; o trabalho braçal era
próprio dos escravos. Quando o Império Romano ruiu,
tornaram-se indispensáveis atividades de sobrevivência,
sempre menosprezadas. E eis que os monges aparecem, ante as
multidões miseráveis, como semi-deuses que habitam em
admiráveis abadias devotadas ao esplendor do culto, e que
após um simples bater do sino descem aos pântanos,
desertos ou florestas para abrir roças com seus braços! Quando os
monges deixavam suas celas para cavar valetas e arar campos, "o efeito era mágico. Os homens
voltavam para uma nobre porém desprezada tarefa".
São Gregório Magno (590-604) refere-se ao abade Equitius,
do século VI, famoso pela sua eloqüência. Um enviado
papal foi procurá-lo e se apresentou no scriptorium onde imaginava
encontrá-lo entre os copistas. Os calígrafos simplesmente
disseram: "Ele está
lá embaixo no vale, cortando a cerca". Inventores
de tecnologias logo comunicadas a todos
Os
cistercienses ficaram famosos pela sua sofisticação
tecnológica. Uma grande rede de comunicações
ligava os mosteiros, e entre eles as informações
circulavam rapidamente. Isso explica que equipamentos similares
aparecessem simultaneamente em abadias, por vezes a milhares de milhas
umas das outras. No século XII o mosteiro de Clairvaux, na
França, copiou 742 vezes um relatório sobre o
aproveitamento da energia hidráulica, para que chegasse a todas
as casas cistercienses do Velho Continente. Eis uma
significativa carta da época: "Entrando na abadia sob o muro de
clausura, que como um porteiro a deixa passar, a correnteza se joga
impetuosamente no moinho, onde um jogo de movimentos a multiplica antes
de moer o trigo sob o peso de moendas de pedra; depois o sacode para
separar a farinha do joio. Assim que chega no próximo
prédio, a água que enche as bacias se rende às
chamas, que a esquentam para preparar cerveja para os monges". O
relato continua expondo a lavagem mecânica da lã, a
tintura dos panos e o tingimento dos couros (p. 34-35).
Todos os
mosteiros dos cistercienses tinham uma fábrica modelo, com
freqüência tão grande quanto a igreja. Eles foram os
líderes da produção de aço na Champagne.
Usavam resíduos dos fornos como fertilizantes, pela
concentração de fosfatos. Jean Gimpel alude a uma
autêntica revolução industrial na Idade
Média, pois esta "introduziu
a maquinaria na Europa numa medida que nenhuma
civilização previamente conheceu" (p. 35). E
Woods completa: "Esses mosteiros
foram as unidades econômicas mais produtivas que jamais existiram
na Europa, e talvez no mundo, até aquela época" (p.
33). A finalidade
dos monges era imprimir no mundo a imagem do sublime Criador. Por isso,
viam como uma vitória que outros implementassem logo as
invenções que expandiam o Reino de Deus na Terra. Stark
cita a admiração dos viajantes vendo os quase dois mil
moinhos que realizavam toda espécie de tarefas nas margens do
Sena, nas proximidades de Paris. Descobertas
grandes e surpreendentes
No
início do século VII, o monge Eilmer voou mais de
Os monges
eram habilidosos relojoeiros. O primeiro relógio mecânico
de que se tem registro foi feito pelo futuro papa Silvestre II para a
cidade de Magdeburg, na Alemanha por volta do ano 996. No século
XIV, Peter Lightfoot, monge de Glastonbury, construiu um dos mais
antigos relógios ainda existentes. Richard de Wallingfor, abade
de Saint Albans, além de ser um dos iniciadores da
trigonometria, desenhou um grande relógio astronômico para
o mosteiro, que predizia com precisão os eclipses lunares.
Relógios comparáveis só apareceriam dois
séculos depois.
Gerry
McDonnell, arqueometalurgista da Universidade de Bradford, na
Inglaterra, encontrou nas ruínas da abadia de Rievaulx, as
provas de um grau de avanço tecnológico capaz de produzir
as grandes máquinas do século XVIII. Os religiosos
medievais tinham conseguido fornos capazes de produzir aço de
alta resistência. Rievaulx foi fechada pelo heresiarca Henrique
VIII em 1530, e por isso o aproveitamento dessas descobertas ficou
atrasado de dois séculos e meio. Em Arbroath
(Escócia) os abades instalaram um sino flutuante num recife
perigoso, que as ondas agitadas faziam soar para alertar os navegantes.
O recife ficou conhecido como "Bell Rock" (Recife do Sino), e hoje um
farol e um museu lembram o fato. Por toda parte os frades
construíam ou reparavam pontes, estradas e outras obras
indispensáveis para a infra-estrutura medieval. E isto sem
nenhuma despesa para o erário público. Oh época
feliz, em que os cidadãos não viviam esmagados por
impostos para obras que acabam sendo mal feitas! Sem
a Igreja não teria havido ciência A alegada
hostilidade da Igreja Católica à ciência não
resiste a qualquer análise. A verdade é que, sem a
Igreja, não teria havido ciências sistemáticas e
dinâmicas, diz Woods. De fato, a
idéia de um mundo ordenado, racional — indispensável para
o progresso da ciência — está ausente nas
civilizações pagãs. Árabes,
babilônios, chineses, egípcios, gregos, indianos e maias
não geraram a ciência, porque não acreditavam num
Deus transcendente que ordenou a criação com leis
físicas coerentes. Os caldeus
acumularam dados astronômicos e desenvolveram rudimentos da
álgebra, mas jamais constituíram algo que se pudesse
chamar de ciência. Os chineses "nunca formaram o conceito de um celeste
legislador que impôs leis à natureza inanimada" (p.
78). Resultado: descobriram a bússola, mas não sabiam
para o que servia e a usavam em adivinhações. A
Grécia antiga confundia os elementos com deuses perversos e
caprichosos. O Islã recusava a existência de leis
físicas invariáveis, porque coarctariam a vontade
absoluta de Alá (p. 79). Essas crendices todas tornam
impossível a ciência (p. 77). O
historiador da ciência Edward Grant indaga: "O que tornou possível à
civilização ocidental desenvolver a ciência e as
ciências sociais, de uma maneira que nenhuma outra
civilização o fizera anteriormente? A resposta, estou
convencido, encontra-se num espírito de
investigação generalizado e profundamente estabelecido
como conseqüência da ênfase na razão, que
começou na Idade Média” (p. 66). A
Igreja inspirou os códigos de leis e o Direito Internacional
Segundo o
professor de Direito Harold Berman, os modernos sistemas legais "são um resíduo secular de
atitudes e posições religiosas, que têm sua
primeira expressão na liturgia, ritos e doutrinas da Igreja, e
só depois nas instituições, conceitos e valores da
Lei" (p. 187). A Igreja
restaurou o direito dos romanos, aportando uma
contribuição própria inapreciável. O Papa
Gelásio definiu os limites da ordem temporal e espiritual. O
primeiro corpo sistemático de leis foi o Código
Canônico. O conceito de direitos individuais, que se atribui
erroneamente aos pensadores liberais dos séculos XVII e XVIII,
de fato deriva de Papas, professores universitários, canonistas
e filósofos católicos medievais. Deve-se também
à Igreja o Direito Internacional. Pela influência d'Ela,
os processos jurídicos e os conceitos legais substituíram
os juízos dos germanos baseados na superstição. A
Revolução igualitária, que se iniciou no
século XV, gerou pensadores como o filósofo
britânico do século XVII Thomas Hobbes, para quem a
sociedade humana é impossível sem uma espécie de
despotismo. Para ele, o soberano deveria definir o que é
verdadeiro e o que é errado, isto é, agir de um modo iluminado e arbitrário. Os
escolásticos fundaram a economia científica
Um dado
muito pouco conhecido é que a Igreja inspirou o pensamento
econômico. Joseph Schumpeter, em sua History of Economic Analysis (1954),
disse dos escolásticos: “Foram
eles os que chegaram, mais perto do que qualquer outro grupo, a serem
os ‘fundadores’ da economia científica” (p. 153). Jean Buridan
(1300-1358), reitor da Universidade de Paris, deu importantes
contribuições à moderna teoria da moeda. Nicolas
Oresme (1325-1382), aluno de Buridan e padre fundador da economia
monetária, estudou com prioridade os efeitos destrutivos da
inflação (p. 155). Martín de Azpilcueta
(1493-1586), escolástico tardio, escreveu sobre a carestia
provocada pelo aumento de meio circulante. O Cardeal Caietano
(1468-1534) justificou moralmente o comércio internacional e
mostrou como a expectativa sobre o valor futuro da moeda afeta o
presente do mercado (pp. 157-158). Para Murray Rothbard, “o Cardeal Caietano, um príncipe da
Igreja do século XVI, pode ser considerado o fundador da teoria
da expectativa em economia" (p. 158). O
franciscano Jean Olivi (1248-1298) foi o primeiro a propor uma teoria
do valor subjetivo, e mostrou que o "justo preço" emerge da
interação entre compradores e vendedores no mercado. Um
século e meio depois, São Bernardino de Siena, o maior
pensador econômico da Idade Média, consagrou esta teoria
(p. 158). A
caridade cristã exorcizou a brutalidade pagã
W. E. H.
Lecky destaca que nem na prática nem na teoria a caridade ocupou
na Antigüidade uma posição comparável
à que teve no Cristianismo. O historiador da medicina Fielding
Garrison mostra que antes de Cristo "a atitude face à doença e
à desgraça não era de compaixão. O
crédito de cuidar dos seres humanos enfermos em grande escala
deve ser atribuído à Igreja” (p. 176). Os
cristãos causavam admiração pela coragem com que
atendiam os agonizantes e enterravam os mortos. Os pagãos
abandonavam em ruas e estradas os parentes e melhores amigos doentes,
semi-mortos, ou mortos sem enterrar. Santo
Agostinho fundou uma hospedaria para peregrinos, resgatou escravos, deu
roupa aos pobres. São João Crisóstomo fundou
hospitais em Constantinopla. São Cipriano e Santo Efrém
organizaram os auxílios durante epidemias e fomes.
O rei de
França São Luís IX dizia que os mosteiros eram o
"patrimônio dos pobres". Eles davam diariamente esmolas aos
carentes. Por vezes, míseros seres humanos passavam a vida
dependendo da caridade monástica ou episcopal. Também
distribuíam alimentos aos pobres em sufrágio da alma de
um religioso falecido, durante trinta dias no caso de um simples monge,
e durante um ano no caso de um abade. E, às vezes, perpetuamente.
Os
hospitais, esses desconhecidos pelos não católicos As ordens
militares, fundadas durante as Cruzadas, criaram hospitais por toda a
Europa. A Ordem dos Cavaleiros de São João (ou
Hospitalários, que deu origem à Ordem de Malta) criou um
hospital em Jerusalém por volta de 1113. João de
Würzburg, sacerdote alemão, ficou pasmo com o que viu ali. "A casa — escreveu ele — alimenta tantos
indivíduos fora dela quanto dentro, e dá um tão
grande número de esmolas aos pobres, seja os que chegam
até a porta, seja os que ficam do lado de fora, que certamente o
total das despesas não pode ser contado, nem sequer pelos
administradores e dispensários da casa". Teodorico de
Würzburg, outro peregrino alemão, maravilhou-se porque "indo através do palácio,
nós não podemos de maneira alguma fazer uma idéia
do número de pessoas que ali se recuperam. Nós vimos um
milhar de leitos. Nenhum rei, ou nenhum tirano, seria suficientemente
poderoso para manter diariamente o grande número de pessoas
alimentadas nessa casa" (p. 178).
Raymond du
Puy, prior dos Cavaleiros Hospitalários, incitou os
monges-guerreiros a fazerem sacrifícios heróicos por
"nossos senhores, os pobres". "Quando
os pobres chegam — diz o artigo 16 do decreto de du Puy — devem ser assim acolhidos: que recebam
o Santo Sacramento, após terem primeiro confessado seus pecados
ao sacerdote, e depois sejam levados à cama, como se fosse um
Senhor". O decreto de du
Puy virou um marco no desenvolvimento dos hospitais (p.
178-179).
O Hospital
de Jerusalém inspirou uma rede de hospitais similares na Europa
No século XII eles pareciam mais com hospitais modernos do que
com os antigos hospícios. O de São João de
Jerusalém impressionava pelo profissionalismo,
organização e disciplina. Cada dia o doente devia ser
visitado duas vezes pelos médicos, ser lavado e tomar duas
refeições. Os responsáveis não podiam comer
antes que os pacientes. Uma equipe de mulheres cumpria outras tarefas e
garantia vestimentas e roupa de cama limpas. O
protestante Henrique VIII fechou os mosteiros e confiscou suas
propriedades, na Inglaterra, sob a falsa acusação de que
eram fonte de escândalo e imoralidade. Desapareceu então a
caridade para com os necessitados. A redistribuição das
terras abaciais trouxe "a
ruína para incontáveis milhares dos mais pobres dos
camponeses; a quebra de pequenas comunidades, que eram o seu mundo, e a
verdadeira miséria passou a ser seu futuro" (p.
182). O desespero popular atiçou os motins populares de 1536 (p.
181). Idêntico
ou pior mal fez a Revolução Francesa. Em 1789, o governo
revolucionário confiscou as propriedades da Igreja. Em 1847,
mais de meio século depois, a França tinha 47% a menos de
hospitais do que no ano do confisco (p. 185-186). Abadias:
hotéis gratuitos para peregrinos, viajantes e pobres
Pela regra
de São Bento, os frades deviam dar esmolas e hospitalidade ao
necessitado, como se este fosse um outro Cristo. Por isso os mosteiros
serviam de hospedagens gratuitas, seguras e tranqüilas para
viajantes, peregrinos e pobres. Não
somente recebiam a todos, mas em alguns casos iam à sua procura.
O hospital monástico de Aubrac tocava um sino especial à
noite, para orientar os viajantes perdidos no bosque. A cidade de
Copenhague, na Dinamarca, nasceu em torno de um mosteiro estabelecido
pelo bispo Absalon, para socorrer os náufragos.
A
Igreja enxotou os costumes depravados e criminosos
Os
padrões de moralidade foram modelados pela Igreja
Católica. Platão
ensinava que um doente, ou um incapacitado de trabalhar, devia ser
morto. Na Roma antiga havia 30% mais de homens do que de mulheres. As
meninas e os varões deformados eram simplesmente abandonados. Os
estóicos favoreceram o suicídio para fugir da dor ou de
frustrações emocionais. Os romanos afundaram tanto na
sensualidade, que até perderam o culto da deusa Castidade.
Ovídio, Catulo, Marcial e Suetônio contam que as
práticas sexuais do seu tempo eram perversas e até
sádicas. Segundo Tácito, no século II uma mulher
casta era fenômeno raro. Enfim, reinavam os torpes vícios
em que hoje vai recaindo o mundo neopagão que apostatou da
Cristandade.
A Igreja
restaurou a dignidade do matrimônio e gerou um fato desconhecido
pelos pagãos: suscitou mulheres capazes de tocar suas
próprias escolas, conventos, colégios, hospitais e
orfanatos. A Igreja
definiu e delimitou a guerra justa. Nem Platão nem
Aristóteles fizeram qualquer coisa de comparável. Em
sentido contrário, o espírito moderno antimedieval teve
um mestre em Nicolò Machiavello. Ele postulou que a
política é um jogo cínico, onde "a remoção de um peão
político, embora envolva cinqüenta mil homens, não
é mais perturbadora que a remoção de uma
peça de xadrez do tabuleiro" (p. 211). O
papel da Igreja na construção da civilização Woods
conclui: "A Igreja não
apenas contribuiu para a civilização ocidental, mas Ela
construiu essa civilização" (p. 219). "Pensamento econômico, lei
internacional, ciência, vida universitária, caridade,
idéias religiosas, arte, moralidade — estes são os
verdadeiros fundamentos de uma civilização, e no Ocidente
cada um deles emergiu do coração da Igreja
Católica" (p. 221). Woods
constata que as escolas revolucionárias, que dizem ser a fonte
da civilização, na realidade trabalharam pela sua
demolição. As escolas literárias
revolucionárias conceberam enredos bizarros que refletem um
universo anárquico e irracional. Na música, o mesmo
espírito anticristão criou ritmos caóticos como os
de Igor Stravinsky. Na arquitetura produziu a
degeneração, hoje evidente, em edifícios
destinados a serem igrejas progressistas.
Em filosofia, caiu-se a ponto de o existencialismo
propor que o universo é absurdo, que a vida carece de
significado e que a única razão de viver é
enfrentar o vácuo (p. 222-223). A
Renascença e o Romantismo levaram o homem a voltar-se sobre si
próprio. Esta tendência desordenada resultou na
preocupação obsessiva consigo mesmo e, por fim, no
narcisismo e niilismo da arte moderna. O artista londrino Tracey Emim,
por exemplo, criou a absurda "obra de arte" My Bed: uma cama desfeita e
suja, com garrafas de vodka, preservativos usados e roupas
ensangüentadas. Numa exposição na Tate Gallery, em 1999,
vândalos nus pularam na "obra" e beberam o vodka. O
público aplaudiu. Emim ganhou o posto de professor na European Graduate School. Estas
são amostras do abismo em que caiu este mundo, que negou
até a possibilidade de aspirar pela restauração da
Cristandade. *
* *
Bem ensinou
São Pio X que a Civilização Cristã
não é um sonho nem uma utopia que está para ser
descoberta. Ela existiu, como está consignada em inúmeros
testemunhos históricos. E autores novos, como os que acabamos de
citar, os redescobrem hoje com surpresa e admiração. Mais ainda,
ela existe em germe nas almas que, enfadadas pela anarquia e a
cacofonia hodiernas, andam à procura da ordem ideal. Com certeza,
a Cristandade voltará a tornar-se realidade mais uma vez, e
ainda mais esplendorosa, após o triunfo do Imaculado
Coração de Maria, previsto em 1917 por Nossa Senhora em
Fátima. Notas: 1. Rodney Stark, The
Victory of Reason — How Christianity Led to Freedom, Capitalism and
Western Sucess, Random House, 2005, 281 pp.2. Stark, op.
cit., p. 7. 3. Thomas E. Woods, Jr. Ph. D., How the Catholic Church built Western Civilization, Regnery Publishing Inc., Washington D. C., 2005, 280 pp. As citações deste artigo são deste livro, salvo indicação em contrário.
|
|
|||||||||||||||||||||||||||||
|
|
|||||||||||||||||||||||||||||||
![]() |
Voltar para o Jornal Ceciliano | ![]() |
|||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||
| © Copyright. Congregação Monástica de Santa Cecilia |