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Discernimento Ceciliano n° 6.
(O Conhecimento de si.)
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O discernimento da vocação e a posterior participação numa comunidade Religiosa Monástica, exigem um bom conhecimento de si mesmo. Faz parte do itinerário de uma vida consagrada, o conhecer-se interiormente. Os ascetas da antiguidade muito insistiram nesse ponto, tido como chave, da vida espiritual em franco ascenso. A dispersão dos valores pessoais ocultos na câmara secreta do interior de cada um, gera o arrefecimento da espiritualidade espiritual e cristã. É conhecido o axioma de origem grega traduzido para o latim: "Nosce te ipsum" que significa: "Conhece-te a ti mesmo".
A vida espiritual começa, a partir do conhecimento de nós mesmos, sem o qual é impossível viver em paz e conviver equilibradamente com outras pessoas. Mas quando nós nos descobrimos passamos pela crise da desilusão; ficamos desiludidos com nós mesmos, e nessa desilusão passamos a viver a realidade. Deus criou-nos tal e qual a sua imagem e semelhança, como relata a Escritura: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança..." (Gn.1,26) Diz o escritor José Hermógenes de Andrade, de quem vamos transcrever vários textos: "Quando um ser humano consegue desiludir-se do falso diagnóstico que de si mesmo fazia, as portas do céu lhe são abertas" (Yoga para nervosos pag. 118) Ser o que é, nunca pretender ser a imagem de outrem, mesmo que seja uma pessoa muito querida. Imita-la é certo, ser como ela é, não combina.
Há três grandes obstáculos para o nosso auto conhecimento, cita Hermógenes: Auto complacência, auto piedade, auto-severidade. Pela auto complacência o indivíduo obscurece os defeitos e dá ênfase a tudo que parece perfeição no afã de buscar uma agradável visão de si mesmo. Rejeita as admoestações como se fossem agressões, revolta-se com a mão que se estende para ajudá-lo. Nesse caso o indivíduo sempre tem desculpas para seus erros, no colégio, quando vai mal, a culpa é do professor; quando derrubou a louça e quebrou-a, a culpa foi do outro que a deixou muito na beira da mesa, não sua falta de cuidado, escapou-lhe a pilha de pratos das mãos, a culpa foi do fulano que não lhe veio ajudar etc. Este defeito justifica tudo, mesmo que seja a casualidade ou o destino. Pela auto piedade o indivíduo sente-se vítima em tudo, julga-se perseguido por todos e tende a dilatar com exagero os sofrimentos triviais, aumentando-lhes e transformando-os em tragédia. Pobre de mim exclama, eu não merecia isto, por que eu? Etc. Pela auto severidade o indivíduo, contrário da auto complacência, se fixa sobre o que precisa ser corrigido em seu caráter, temperamento ou personalidade e não toma interesse pelo que ele, eventualmente, possua de bom e positivo em sua vida. Cria um clima de auto punição e de negatividade até as raias da neurose; para esse tal sua vida é um trapo, de nada vale, para nada serve. Aliás, nossos ascetas trilharam por esse caminho, e a "Imitação de Cristo" menciona essa idéia gestada ao longo de muitos séculos. Praticaram e ensinaram que devíamos maltratar o corpo, por que este era estorvo para a felicidade eterna, uma vez que aprisionava a alma. De seus resultados, num passado remoto, não se pode duvidar, mas que isto seja bem sucedido em nosso tempo, com certeza podemos pôr em questionamento qualquer uma das três atitudes nasce do egoísmo e, é fonte onde ele nasce. Qualquer uma torna-se forte empecilho ao auto-conhecimento, aumenta as emoções e gera o "stress." Conhecer-se é um gesto de redenção pessoal. Significa, também, saber perdoar-se, pois a autopunição não se perdoa. Diz a Imitação de Cristo que "conhecer-se é a maior ciência do cristão" ( Imitação de Cristo L.II cap.V) e prossegue: "Quem melhor se conhece, melhor se despreza, aflige-se com a chaga de seu coração, de sentir o amor próprio que o domina..." Nisto acontece o processo da chamada desilusão, conhecendo-se a si mesmo a pessoa chega ao ponto da verdade crua e nua do que ela realmente é. Esfacelam-se os orgulhos, desmontam-se  as vaidades e começa por brilhar a imagem de Deus, outrora perdida pelo pecado no Paraíso.

Conhece-te a ti mesmo, estava escrito no pórtico do templo de Delfos e Sócrates passou a ensinar para seus discípulos, foi o princípio de uma sabedoria oculta e quase um privilégio de poucos iniciados, o conhecimento de si, que procura o verdadeiro Ego, escondido dentro de cada pessoa, independente de sua posição social, econômica, intelectual ou ignorante, bem como do forte ou do fraco, do orgulhoso ou do virtuoso. Encontra-lo é questão de um auto- rastreamento que o indivíduo realiza no seu interior. Conhecemos a profundidade da água, nela "tomando pé." "Quando sentires os primeiros impulsos de uma crise emocional, aconselha Hermógenes (Yoga para nervosos pág. 120) em vez de amedrontar-se e correr para buscar tranqüilizantes, faça o oposto sente-se relaxado, sereno, corajosos, calmo, sem luta, e comece a conscientizar tudo que for acontecendo. Procure conhecer as causas,...nada de apiedar-se de si mesmo, se entregue na mão de Deus."
Conhecer-se é saber vasculhar seu próprio interior com serenidade. Algumas escolas da Antigüidade afirmam que perdemos um mau hábito, a partir da descoberta de que o temos. É certa a educação em que o mestre aponta ao discípulo suas falhas, com certeza o ajudará a conhecer-se com mais facilidade. Perdemos o orgulho quando nos damos conta de que somos orgulhosos e assim por diante. Isto é válido para perdermos certos tiques nervosos e hábitos errados ou vícios. A Psicanálise chama de racionalização o ato de  justificar tudo. P. exemplo: o bêbado faz menção de abandonar o vício, mas lá um dia torna a beber. Alega, então, que o álcool é um vaso dilatador que dá energia, que protege contra o frio no inverno e no verão refresca etc. A racionalização é, portanto, o contrário do conhecimento de si. Este desilude e liberta; aquela escraviza e aprisiona por esconder a verdade.
O abandono das coisas terrenas, vãs e caducas será forte impulso para a busca de si mesmo. Na fanfarrice de um mundo superficial e medíocre é impossível realizar o auto-conhecimento, sem afastar-se dele, isto é, mesmo estando nele, não adotar seus costumes e suas máximas.
A sociedade moderna sofre esse impasse, vive nas ilusões da mídia, da propaganda e do consumo em detrimento da verdade. A proposta moderna da globalização ilude o mais possível os indivíduos, especialmente os jovens,  que são as vítimas mais cobiçadas e incautas do supérfluo e  do enganoso. Enganados, estes, debocham de tudo o quanto possa levar ao homem interior. Aliás, se a juventude tornou-se debochada e irreverente é, justamente, por estar vazia no seu interior ou, noutras palavras, por não haver descoberto a si mesmo. "O homem vulgar é, comumente, um diluído dentro do ambiente em que se encontra." (Hermógenes: "Yoga para nervosos" pag. 122) O endeusamento e a  idolatria do corpo, sem dúvida, faz esquecer ou julga retrógrada a verdadeira busca de si. No muito se afagar, mimar-se e desejar aparecer, o homem interior torna-se cada vez mais oculto. Na ânsia de aparecer frente a sociedade, torna-se muito difícil o conhecimento interior de si, pois a sociedade, como um todo, é mera junção de fantasias e muito pouco ou quase nada soma para esta busca interior; quanto mais você funde com a sociedade, mais vazio vai ficando, porque a sociedade é só exterior, aparências e demonstrações de força e poder. É um digladiar consigo mesmo para que os outros achem bonito. Outra situação é a daquele que, de tanto buscar defeitos no próximo, acaba por esquecer, totalmente, seus próprios defeitos e passa a "ver a palhinha no olho do irmão e não repara a trave que está em seu próprio olho" (Cf. Lc. 6,41) O homem interior que busca a perfeição, não  vasculha os defeitos alheios, mas quando os observar deve, discretamente, ajudar a corrigi-los e quando, dessa forma, observou nos seus semelhantes, prudentemente seria examinar se ele também não tem a mesma limitação execranda que ora vê como um mal no seu próximo. A "Imitação de Cristo," entretanto, alerta-nos para o seguinte:

" Nunca serás homem de vida interior e devoto, se não calares dos outros e tiveres especial cuidado de ti."( L. II  Cap. V)  É muito incômodo o convívio com fofoqueiros e muito desagradável conversar com quem sempre está falando alguma coisa de mal dos outros.
Caro Monge! Procura desiludir-te na busca do conhecimento de si. Santa desilusão! Essa te fará um bem enorme, pois só assim procurarás  conhecer-te no silêncio da tua paz ou do teu conflito, não importa, importante mesmo é que venhas a conhecer-te. Nisso conseguirás uma medida para teus atos. Por ex: se fores atrevido ao falar com outros, procures ficar mais calado, se souberes muito, ao lado dos ignorantes, faz de conta que sabe pouco, ao contrário, se souberes pouco ao lado dos mais sábios, não te0nhas vergonha de mostrar-te ignorante naquele assunto, certamente alguma coisa que sabes os outros não saberão, ninguém sabe tudo, tão pouco nasceu sabendo. Quão frágil é aquele que conhece muito do mundo, da política, da religião e das ciências, e não conhece a si mesmo. Pensas que és tão forte, mas quando entras em um quarto escuro e pisas numa corda, estremeces por pensar ter sido uma serpente. Recolhe-te, procura conhecer-te, assim estarás no caminho do aperfeiçoamento interior, ouvindo sempre como um eco àquelas palavras: “Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito" (Mt 5,48)" Eu sou o Deus todo poderoso, anda em minha presença e sê perfeito" ( Gn. 17,1) Esta é a rua estreita da perfeição Monástica.

Compêndio da Ascética Cecilia - Contemplações.
Contemplação - I - Oração Mental.
Contemplação - II - Meditação.
Contemplação - III - Exercício piedoso.
Contemplação - IV - Contemplação de Deus no mundo.
Contemplação - V Começa na admiração e exatação da Obra de Deus.
Contemplação - VI - Retirar-te ao secreto de teu coração.
Contemplação - VII - Sobre a Meditação e oração mental.
Fim do Manual do Vocacionado Ceciliano.

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