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Caro jovem Monge!
Após um longo
discernimento, tempo durante o qual lestes os discernimentos
de 1 a
4 e, com certeza, neles obtivestes relevante ajuda. Apresentamos agora
uma nova etapa de discernimento, provavelmente, a esta altura já
estejas ingresso ou quase ingressando no
Mosteiro, assombrado com a nova comunidade tão diferente de
outras comunidades ou da vida que levastes antes, parecendo, por alguns
momentos, que estes são uma turma de malucos, “
estultos por causa de Cristo” (Cf.I Cor.4,10).
Permite-nos insistir bastante no aprimoramento do eu interior que
é a chama divina em nós, para educá-lo ao modo de
Cristo. É impossível abafar o ego, pura e simplesmente, a
não ser que nos lavem o cérebro, ou dominem, ou
escravizem-nos e façam que prestemos vassalagem ás
pessoas constituídas ou não em grau hierárquico.
Obviamente que tais atitudes tornam-se servis e, por absurdo que
pareçam, subtraem a personalidade verdadeira de cada um, esmagam
os líderes e transformam os homens em fantoches, quando
não em hipócritas, fingidos e de dúbia
personalidade. Você Monge, ou quase Monge, deve manter firme o
ego interior que move a vontade, para obteres a força de vencer
as paixões mais duras e vis. Observa que as paixões
são insufladas pelas coisas do mundo, pelos sonhos de grandeza,
riquezas e deleites terrenos. "Necessitamos ponderar, que coisas
são essas que o mundo proclama com tanto ênfase, que
coisas tão grandes aos olhos dele, que significado tem suas
belezas e suas promessas." (Cf. com “O combate espiritual”
de Lourenço Scúpoli cap.
VIII) A força do ego é desenvolvida no
silêncio, na meditação e na
contemplação da beleza suprema
que vive, também, dentro de nós. O ego é uma
centelha divina em nosso interior e Jesus admoesta: “Vê,
pois, que a luz que está em ti não seja trevas.”
(Lc.11,35) Teu ego é tu mesmo.
Sê, pois por dentro e por fora, sempre o mesmo!
Considera o que diz Coelet:“Vaidade das vaidades.Tudo
é vaidade” (Ecle. 1,1) Não é por nada que a
Escritura já nos interroga com certa veemência: “ Ó homens, até quando tereis o
coração endurecido no amor das vaidades e na busca da
mentira?” (Sl.4,3) Sábio é, pois, aquele que percebe
que a corrida insana e sôfrega pela busca das coisas do mundo
é traduzida como mentira, vaidade e estimulo ao endurecimento do
coração para as coisas de Deus, que é ignorado e
substituído, muitas das vezes, pelos ídolos do mundo, a
semelhança pagã ou do homem velho tal como o
Apóstolo coloca em evidência: “O seu
espírito está obscurecido. Sua ignorância e o
endurecimento de seu coração mantém-nos afastados
da vida de Deus.”(Ef. 4, 18) As coisas do mundo apagam a centelha
divina que está dentro de cada um de nós.
Quando o eu interior não está em perfeita conexão
com os planos mais elevados do espírito, o homem deixa de
receber o influxo da sabedoria divina e, entrando em esfacelamento
interior, assume tendências de baixeza que o tornam vil e voltado
para os planos inferiores da matéria como essência de sua felicidade. Pitágoras resume em
quatro pontos essa decadência espiritual que desvirtua a
consumação da verdadeira meta do ser humano: Prosperidade - Renome - Poder -
Amizade.
Prosperidade =
Não se refere a um progresso espiritual, mas é o
afã de conseguir riquezas; alimentar dentro de si o desejo de
possuir muito, e isto chega a tal ponto que obscurece o espírito
enfraquecendo-o e, como que o materializando, torna-o uno com a
matéria, mas é impossível, a matéria quer
tragar o espírito para vencê-lo; e o espírito com a
matéria é como o óleo com a água, jamais se
misturam ambos, a não ser pela ação do calor, mas
logo ao arrefecer, volta ao estado normal separando-se novamente. O
desejo de mostrar-se aos outros, e de cumular muitas posses materiais e
com elas obter todas as facilidades da vida vai, lentamente,
enegrecendo a alma, corrompendo-a e destruindo nela o espírito
de Deus. Quanto mais alguém possui bens, mais apegado fica ao que é material e vai fechando o
canal invisível, por onde entra o influxo da força divina
ou Graça. Não se trata da posse dos bens em si, mas do
fato de materializar o eu interior, em detrimento da
elevação do espírito. Foi por esse motivo que
Jesus disse: “... Filhinhos, quão difícil
é entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas!
É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do
que entrar o rico no reino de Deus.”(Mc. 10,24-25).
Renome = O instinto natural
do ser humano tem desejo e tende a buscar a fama, mesmo que fugaz e
fluida no torvelinho da ilusão. Todo o homem levado pelo
instinto ambiciona ser aprovado pela sociedade, bem visto, elogiado e
enaltecido por ela. Mesmo que tudo seja lábia, mormente quando
interesses entram em
jogo. Na procura desse tal de renome,
as pessoas tornam-se até covardes, podem cometer
injustiças, ou ficam “em cima do muro” naquelas
situações em que deveriam tomar uma posição. Perdem a vergonha e o caráter, muito embora
argumentem bastante, seus raciocínios são
hipócritas, porque não revelam o que lhes passa pelo
interior. Infelizmente, esses tais preferem tudo, menos sujeitarem seus
nomes ao um hipotético desprestígio, porque
desprestigiados, seus cargos ou altos padrões sociais colocam-se
em jogo e em
perigo. O desejo de fama na linguagem dos homens
é mesquinho na de Deus. Nem sempre quem é famoso aos
olhos do mundo o é perante Deus, e quem muito busca a fama do
mundo perde-se na jogada, da busca interior de Deus para sua
santificação. Os gênios não ficam famosos
enquanto vivem; eis o segredo de sua genialidade, nisto provam que
são verdadeiros gênios.
Poder = Confere
força para agir e decidir. Nos fracos, espiritualmente, subleva
o orgulho e a vanglória, bem como o instinto de
dominação em detrimento da virtude. Dizia o
Apóstolo Paulo: “Não buscamos glórias
humanas, nem de vós, nem de outros.” (I.Tes.2,6) O anseio
desmesurado de dominar é capaz de chegar as raias da
violência e transformar verdades em ideologias. A
ânsia do poder leva a fraude, a mentira e a
corrupção. Pela disputa do poder, muitos vendem a
própria alma como a lenda do Dr. Fausto. O poder afaga o orgulho
e ilude o detentor como se ele realmente fosse grande, quando, na
verdade, nem sempre o é. Normalmente o poder traz consigo o
índice do mau caráter e da insensibilidade, e o que
exerce transforma-se no que for preciso, desde que não seja
abalada sua estrutura de poder. Quantos há que esqueceram sua
vida passada de simplicidade, quando conseguiram o poder; este, uma vez
na cabeça de alguém, muda-lhe a personalidade, faz
esquecer a caridade e o amor para servir a engrenagem que o levantou e
suas ânsias de orgulho. Disfarce, mentiras, desculpa com leis e
decretos, fazem parte da linguagem do poder, que, normalmente, age por
decisão própria, indignação ou temor,
dizendo-se cumpridor da lei ou do código tal, como por exemplo,
o Direito Canônico.
Amizades - O desejo e o apego
desregrado em ter muitos amigos são um mal, pois é uma
maneira de ser admirado, bajulado e paparicado. Conviver na sociedade e
meter-se nela custe o que custar é outra forma de alienar-se das
propriedades de seu caráter; porque ninguém pode conviver
com muitos e manter-se firme no seu modo e pontos de vista de ser.
Caso, assim convivendo, se manter com sua personalidade individual,
passará a ser excluído e até temido por todos.
Logo, para adaptar-se a sociedade é mister que alguém
esteja disposto a abdicar de sua maneira de pensar, para agir como os
demais, abrir mão de seu modo de ser, para fazer tudo o que os
outros fazem, inclusive andando na moda, enfim, perder a vergonha. Isto
porque o mundo é sem vergonha mesmo e
só assim consegue tirar partido de seu convívio de
amizades. Quando assim proceder terá muitos amigos e todos
dirão: “É uma boa pessoa, não se sabe
nada que ande fazendo de mal para ninguém...” Diz a
Imitação de Cristo: “Quando olhas para as
criaturas, perdes a vista do Criador.” (Cap.42)“porque a
salvação não vem do homem.” (Sl. 59,2) uma vez que “ todo o homem é
mentiroso” (Sl.115,2) Amigos há que são a nossa
perdição, quando com seus maus exemplos
arrastam-nos para os caminhos do absurdo. Muitos jovens,
no mundo lá fora, estão mergulhados na amargura dos
vícios, vítimas dos maus amigos que adquiriram.
O afã das amizades acorrenta-nos aos compromissos com o mundo
que é adverso a Deus, por pertencer, com seus
reinos, a satanás, conforme comprova o texto de São
Lucas: “...Dar-te-ei todo este poder e a glória
destes reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem
quero.” (Lc.4, 6) (Cf. Mt.
4,9).
Não importam, para o seguidor de Jesus Cristo na vida
monástica, as amizades que deixou lá fora. Se nos
perguntássemos, concretamente, as conveniências morais e
materiais dessas amizades, veremos que, praticamente, não
há nenhuma. Normalmente se necessitarmos de alguma coisa, os
amigos todos fugirão ou terão desculpas para justificar
sua apatia. É comum ouvirmos dizer que os amigos são
numerosos quando estamos bem de vida financeira, ou em
posições elevadas ou hierárquicas. O livro de
Jó é um maravilhoso exemplo. Quando ele ficou pobre a
maioria dos amigos fugiu. Ao reaver a fortuna refez as amizades. Os
idosos, normalmente, são desprezados pela sociedade porque
não podem mais lhes prestar serviços. Os sacerdotes, na
velhice, quase sempre, são vistos como empecilho ao progresso da
comunidade. As pessoas, no plano geral, são nossas amigas por
conveniência e interesses, não por sincera e afetuosa
atenção. A maior amizade que deves ter é com Jesus
Cristo, meu caro jovem monge. Ele é e será sempre teu
maior amigo. Jesus é nossa única riqueza, nosso eterno e
dileto amigo. Ele é nossa exaltação porque tem
nossos nomes escritos no livro da vida e promete: “O
vencedor se vestirá de vestes brancas e nunca riscarei seu nome
do livro da vida.” (Ap.3,5) Ele é a nossa força e
poder, nossa única e última esperança. “Ao
vencedor concederei sentar-se comigo em meu trono, assim como eu
também venci e me sentei com meu Pai em seu trono” (Ap. 3,21).
Pax Tecum!
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