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Compêndio da Ascética Ceciliana - Discernimento n° 6.

Caro jovem Monge!

Após um longo discernimento, tempo durante o qual lestes os discernimentos de 1 a 4 e, com certeza, neles obtivestes relevante ajuda. Apresentamos agora uma nova etapa de discernimento, provavelmente, a esta altura já estejas  ingresso ou quase ingressando no Mosteiro, assombrado com a nova comunidade tão diferente de outras comunidades ou da vida que levastes antes, parecendo, por alguns momentos, que estes são uma turma de malucos, “ estultos por causa de Cristo” (Cf.I Cor.4,10).
Permite-nos insistir bastante no aprimoramento do eu interior que é a chama divina em nós, para educá-lo ao modo de Cristo. É impossível abafar o ego, pura e simplesmente, a não ser que nos lavem o cérebro, ou dominem, ou escravizem-nos e façam que prestemos vassalagem ás pessoas constituídas ou não em grau hierárquico. Obviamente que tais atitudes tornam-se servis e, por absurdo que pareçam, subtraem a personalidade verdadeira de cada um, esmagam os líderes e transformam os homens em fantoches, quando não em hipócritas, fingidos e de dúbia personalidade. Você Monge, ou quase Monge, deve manter firme o ego interior que move a vontade, para obteres a força de vencer as paixões mais duras e vis. Observa que as paixões são insufladas pelas coisas do mundo, pelos sonhos de grandeza, riquezas e deleites terrenos. "Necessitamos ponderar, que coisas são essas que o mundo proclama com tanto ênfase, que coisas tão grandes aos olhos dele, que significado tem suas belezas e suas promessas." (Cf. com “O combate espiritual” de Lourenço Scúpoli  cap. VIII) A força do ego é desenvolvida no silêncio, na meditação e na contemplação da beleza  suprema que vive, também, dentro de nós. O ego é uma centelha divina em nosso interior e Jesus admoesta: “Vê, pois, que a luz que está em ti não seja trevas.” (Lc.11,35)  Teu ego é tu mesmo. Sê, pois por dentro e por fora, sempre o mesmo!
Considera o que diz Coelet:“Vaidade das vaidades.Tudo é vaidade” (Ecle. 1,1) Não é por nada que a Escritura já nos interroga com certa veemência: “ Ó homens, até quando tereis o coração endurecido no amor das vaidades e na busca da mentira?” (Sl.4,3) Sábio é, pois, aquele que percebe que a corrida insana e sôfrega pela busca das coisas do mundo é traduzida como mentira, vaidade e estimulo ao endurecimento do coração para as coisas de Deus, que é ignorado e substituído, muitas das vezes, pelos ídolos do mundo, a semelhança pagã ou do homem velho tal como o Apóstolo coloca em evidência: “O seu espírito está obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantém-nos afastados da vida de Deus.”(Ef. 4, 18) As coisas do mundo apagam a centelha divina que está dentro de cada um de nós.
Quando o eu interior não está em perfeita conexão com os planos mais elevados do espírito, o homem deixa de receber o influxo da sabedoria divina e, entrando em esfacelamento interior, assume tendências de baixeza que o tornam vil e voltado para os planos inferiores da matéria como essência de  sua felicidade. Pitágoras resume em quatro pontos essa decadência espiritual que desvirtua a consumação da verdadeira meta do ser humano: Prosperidade - Renome - Poder - Amizade.
Prosperidade = Não se refere a um progresso espiritual, mas é o afã de conseguir riquezas; alimentar dentro de si o desejo de possuir muito, e isto chega a tal ponto que obscurece o espírito enfraquecendo-o e, como que o materializando, torna-o uno com a matéria, mas é impossível, a matéria quer tragar o espírito para vencê-lo; e o espírito com a matéria é como o óleo com a água, jamais se misturam ambos, a não ser pela ação do calor, mas logo ao arrefecer, volta ao estado normal separando-se novamente. O desejo de mostrar-se aos outros, e de cumular muitas posses materiais e com elas obter todas as facilidades da vida vai, lentamente, enegrecendo a alma, corrompendo-a e destruindo nela o espírito de Deus. Quanto mais alguém possui bens, mais apegado fica  ao que é material e vai fechando o canal invisível, por onde entra o influxo da força divina ou Graça. Não se trata da posse dos bens em si, mas do fato de materializar o eu interior, em detrimento da elevação do espírito. Foi por esse motivo que Jesus disse: “... Filhinhos, quão difícil é entrarem no reino de Deus os que confiam nas riquezas! É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no reino de Deus.”(Mc. 10,24-25).

Renome = O instinto natural do ser humano tem desejo e tende a buscar a fama, mesmo que fugaz e fluida no torvelinho da ilusão. Todo o homem levado pelo instinto ambiciona ser aprovado pela sociedade, bem visto, elogiado e enaltecido por ela. Mesmo que tudo seja lábia, mormente quando interesses entram em jogo. Na procura desse tal de renome, as pessoas tornam-se até covardes, podem cometer injustiças, ou ficam “em cima do muro” naquelas situações em que deveriam tomar uma posição. Perdem a vergonha e o caráter, muito embora argumentem bastante, seus raciocínios são hipócritas, porque não revelam o que lhes passa pelo interior. Infelizmente, esses tais preferem tudo, menos sujeitarem seus nomes ao um hipotético desprestígio, porque desprestigiados, seus cargos ou altos padrões sociais colocam-se em jogo e em perigo. O desejo de fama na linguagem dos homens é mesquinho na de Deus. Nem sempre quem é famoso aos olhos do mundo o é perante Deus, e quem muito busca a fama do mundo perde-se na jogada, da busca interior de Deus para sua santificação. Os gênios não ficam famosos enquanto vivem; eis o segredo de sua genialidade, nisto provam que são verdadeiros gênios.
Poder = Confere força para agir e decidir. Nos fracos, espiritualmente, subleva o orgulho e a vanglória, bem como o instinto de dominação em detrimento da virtude. Dizia o Apóstolo Paulo: “Não buscamos glórias humanas, nem de vós, nem de outros.” (I.Tes.2,6) O anseio desmesurado de dominar é capaz de chegar as raias da violência e transformar verdades em ideologias. A ânsia do poder leva a fraude, a mentira e a corrupção. Pela disputa do poder, muitos vendem a própria alma como a lenda do Dr. Fausto. O poder afaga o orgulho e ilude o detentor como se ele realmente fosse grande, quando, na verdade, nem sempre o é. Normalmente o poder traz consigo o índice do mau caráter e da insensibilidade, e o que exerce transforma-se no que for preciso, desde que não seja abalada sua estrutura de poder. Quantos há que esqueceram sua vida passada de simplicidade, quando conseguiram o poder; este, uma vez na cabeça de alguém, muda-lhe a personalidade, faz esquecer a caridade e o amor para servir a engrenagem que o levantou e suas ânsias de orgulho. Disfarce, mentiras, desculpa com leis e decretos, fazem parte da linguagem do poder, que, normalmente, age por decisão própria, indignação ou temor, dizendo-se cumpridor da lei ou do código tal, como por exemplo, o Direito Canônico.
Amizades - O desejo e o apego desregrado em ter muitos amigos são um mal, pois é uma maneira de ser admirado, bajulado e paparicado. Conviver na sociedade e meter-se nela custe o que custar é outra forma de alienar-se das propriedades de seu caráter; porque ninguém pode conviver com muitos e manter-se firme no seu modo e pontos de vista de ser. Caso, assim convivendo, se manter com sua personalidade individual, passará a ser excluído e até temido por todos. Logo, para adaptar-se a sociedade é mister que alguém esteja disposto a abdicar de sua maneira de pensar, para agir como os demais, abrir mão de seu modo de ser, para fazer tudo o que os outros fazem, inclusive andando na moda, enfim, perder a vergonha. Isto porque o mundo é sem vergonha mesmo e só assim consegue tirar partido de seu convívio de amizades. Quando assim proceder terá muitos amigos e todos dirão: “É uma boa pessoa, não se sabe nada que ande fazendo de mal para ninguém...” Diz a Imitação de Cristo: “Quando olhas para as criaturas, perdes a vista do Criador.” (Cap.42)“porque a salvação não vem do homem.” (Sl. 59,2)  uma vez que “ todo o homem é mentiroso” (Sl.115,2) Amigos há que são a nossa perdição, quando com seus maus exemplos  arrastam-nos para os caminhos do absurdo. Muitos jovens, no mundo lá fora, estão mergulhados na amargura dos vícios, vítimas dos maus amigos que adquiriram.
O afã das amizades acorrenta-nos aos compromissos com o mundo que é adverso a Deus, por pertencer, com seus reinos, a satanás, conforme comprova o texto de São Lucas: “...Dar-te-ei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero.”
(Lc.4, 6) (Cf. Mt. 4,9).
Não importam, para o seguidor de Jesus Cristo na vida monástica, as amizades que deixou lá fora. Se nos perguntássemos, concretamente, as conveniências morais e materiais dessas amizades, veremos que, praticamente, não há nenhuma. Normalmente se necessitarmos de alguma coisa, os amigos todos fugirão ou terão desculpas para justificar sua apatia. É comum ouvirmos dizer que os amigos são numerosos quando estamos bem de vida financeira, ou em posições elevadas ou hierárquicas. O livro de Jó é um maravilhoso exemplo. Quando ele ficou pobre a maioria dos amigos fugiu. Ao reaver a fortuna refez as amizades. Os idosos, normalmente, são desprezados pela sociedade porque não podem mais lhes prestar serviços. Os sacerdotes, na velhice, quase sempre, são vistos como empecilho ao progresso da comunidade. As pessoas, no plano geral, são nossas amigas por conveniência e interesses, não por sincera e afetuosa atenção. A maior amizade que deves ter é com Jesus Cristo, meu caro jovem monge. Ele é e será sempre teu maior amigo. Jesus é nossa única riqueza, nosso eterno e dileto amigo. Ele é nossa exaltação porque tem nossos nomes escritos no livro da vida e promete: “O vencedor se vestirá de vestes brancas e nunca riscarei seu nome do livro da vida.” (Ap.3,5) Ele é a nossa força e poder, nossa única e última esperança. “Ao vencedor concederei sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e me sentei com meu Pai em seu trono” (Ap. 3,21).  

Pax Tecum!

Compêndio da Ascética Cecilia - Contemplações.
Contemplação - I - Oração Mental.
Contemplação - II - Meditação.
Contemplação - III - Exercício piedoso.
Contemplação - IV - Contemplação de Deus no mundo.
Contemplação - V Começa na admiração e exatação da Obra de Deus.
Contemplação - VI - Retirar-te ao secreto de teu coração.
Contemplação - VII - Sobre a Meditação e oração mental.
Fim do Manual do Vocacionado Ceciliano.

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