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Na Epístola aos Filipenses o
Apóstolo Paulo estabelece um nível para a busca de Jesus
Cristo. Tudo o que no mundo foi vantagem para ele, agora vê como
um dano, em comparação ao conhecimento de Jesus Cristo,
seu Senhor. (cf.Fil.3,8) Continuando diz: “Por ele, tudo desprezei e tenho em conta
de esterco, a fim de ganhar a Cristo.” (Fil. 3,8).
Quem vai ao encontro de
Cristo, para uma vida especial de consagração, deve,
antes de tudo, ter meditado e refletido muito, fazendo de si mesmo uma
auto-análise da possibilidade de sucesso. Considere-se que,
entrar para uma Família Religiosa e depois abandona-la por
não se encontrar ali, é sempre uma situação
conflitiva para a própria pessoa, muito embora não seja
para os superiores dessa comunidade, que poderão encarar tudo
como mais uma prova que falhou e parte de sua função:
acolher e despedir com o mesmo semblante. Faz-se mister que o candidato
esteja disposto a mudar toda a sua vida e pensamento, que esteja
plenamente convertido, nas suas intenções mais
íntimas e no modo de proceder; o Mosteiro será o campo
aberto para praticar todos os bons desejos que, na sua conversão
já decidiu cumpri-lo. É absolutamente necessário,
considerar o mundo como esterco e o esterco o prato preferido do mundo,
já que este se regozija com toda a imundície.
Se o Mosteiro representa o
céu, no pensamento dos antigos Abades ele é “porta do
céu” para a Santa Regra Ceciliana. É óbvio que
ninguém entra no céu, sem antes ter purificado sua alma
pela conversão a Deus. Quando não a purificou, existe uma
“escada de Jacó” que lhe possibilita, gradativamente,
purificar-se, para, então, tomar posse do reino eterno.
Não deve o iniciante pensar que deva entrar para o Mosteiro e
lá se converter. Nesse meio tempo, terá ele, com suas
muitas mundanices, danificado a outros que, por ventura ali estejam em
graus superiores de ascensão espiritual. Uma laranja podre faz
apodrecer todas as outras laranjas da bolsa. Na história
monástica encontramos muitos monges que ingressaram na vida
monástica e depois se converteram, inclusive recebendo o
batismo, muitos eram pagãos. Ilustrando diga-se, que o rigor dos
Mosteiros de antanho era, em grau bem maior, diferente dos de hoje.
Naquela época, quem não cumpria as
determinações apanhava uma surra. Os abades mandavam
agredi-los, e não permitiam abandonar o Mosteiro; aos que
desejassem retornar ao mundo, eram aplicadas severas penas. Muitos
ficavam doentes e até com problemas mentais; provavelmente pelos
maus tratos e pela solidão.
É preciso, pois,
abandonar com sincera renúncia, todo o laivo de mundano que
exista em sua vida. Há os que, levam o mundo para dentro do
Mosteiro, mas isto é catastrófico, de vez que o mundo
não condiz com o programa de espiritualidade da vida
monástica. Muitos Conventos e Mosteiros entraram em crise
profunda de identidade pela única razão de haverem levado
o mundo para dentro. Deveria acontecer uma inversão, ao
invés do mundo para dentro do Mosteiro, levar o Mosteiro ao
mundo; fazendo o mundo entrar em estado de contemplação.
São Tomás de Aquino (1225-1274) expressa a doutrina
tomista, toda ela, com determinação e finalidade a Deus,
cuja contemplação é o fim principal do homem,
afirma ele. Contemplas mais a Deus, na medida em que abandonas o mundo!
Segundo o conceito medieval de
Tomás de Aquino, diga-se a glosa, a Ordem de Santa
Cecília, tem em suas metas a finalidade maior da
religião, que é levar o homem a conversão e a
contemplação de Deus no mundo. Por certo que foi este o
objetivo da Encarnação do Verbo, considerando que na
contemplação acontece Redenção. A
contemplação faz presença constante de Deus, ela
é união e intimidade divina. Jesus exclama: “Para que todos sejam um, assim como tu,
Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu
me enviaste.” (Jo.17,21) O
sacrifício Redentor de Cristo não foi consumado
pelas palavras, mas pela união com o Pai, se palavras
salvassem não era necessário morrer na cruz. “Santifico-me pela verdade.
A tua palavra é a verdade” (Jo.17,17) A palavra, entretanto, pode
introduzir o homem na posse da glória, porque através
dela é possível chegar a conversão e a
contemplação do Pai.“
Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como
nós somos um”(Jo.17,22) Platão,
Sócrates e Aristóteles não converteram o mundo,
apesar de seus raciocínios e suas belas palavras, dirigidas como
verdade, à luz do conhecimento intelectual. Elas não
foram mais que razão pela razão; desprovidas da
contemplação da verdade divina. O movimento dos sentidos,
coordenado e direcionado à busca da verdade, leva ao
estágio da contemplação. Jesus afirma que o
Espírito da verdade, é buscado e achado pela
contemplação, por isso “... o mundo não pode receber,
porque não o vê, nem conhece...”(Jo.14, 17) uma vez que ele, o mundo, não
contempla, só desfruta o prazer da vida, insiste na
“celebração da vida” não pelo fruto da
inserção em Deus, mas pelos meios físicos das
disposições perceptíveis, para desfrutar a
existência, como se essa vida fosse a única razão
de ser, não alimentada pela esperança da promessa, nem
pelo conforto da Parusia. Dessa forma o mundo não pode receber o
“Espírito da verdade” que os apóstolos estavam preparados
para recebê-lo, por terem sido instruídos, na pureza dessa
verdade, elevada aos foros da contemplação. O Yogue
Ramacháraca, que nada tem a ver com o cristianismo, mas, em
certo sentido tem, entretanto, corrobora toda a idéia
cristã da contemplação ao afirmar: “Cada um pode entrar no mundo oculto
(contemplativo) por si mesmo, mas é preciso pagar o preço
da conquista, o qual não é ouro nem prata, mas a
renúncia do eu inferior e a devoção
àquilo que é mais elevado ao homem.” (livro: “14
lições de filosofia Yogue” de
Ramacháraca pág. 57) Renúncia do eu inferior tal
como entendemos é renunciar as baixezas do mundo vil, com
seus prazeres e seus atrativos, os quais Pitágoras define
como: prosperidade, renome, poder e amizade.(amizades sociais)
Renunciar tudo, isto já é conversão.(para
uma autêntica renúncia é
preciso boa saúde mental ).
Uma
conversão verdadeira e sincera tem excelentes frutos no estado
contemplativo da vida Monástica. Pondo em mira a
situação inicial do Monge, faz-se mister que o
pretendente tenha diante de si aquele: “Converte-te ao
Senhor, abandona os teus pecados” (Eclo.17,21) “Buscai o Senhor,
já que ele se deixa encontrar, invocai-o, já que
está perto” (Is. 55,6).
A conversão, quando perfeita, facilita a vida contemplativa,
porque leva á verdadeira piedade, aquela que encontra
delícia no estado de oração constante, tendo a
mente elevada a Deus a cada momento, criando certa ansiedade da posse
plena de Deus. É por essa razão que toda a alma
contemplativa sente deleite inigualável na liturgia bem
executada, uma vez que, “na liturgia terrena, antegozando,
participamos da Liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de
Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos.” ( S.C.
n° 8 ).
A conversão supõe, também, gostar do que a Igreja
gosta ou, pelo menos, que ela prega como verdade para crermos e
seguirmos. Dizer que está convertido, mas continuar com
idéias mundanas, ou desprezar o passado da fé e da Igreja
em favor de uma Igreja renovada que rejeitasse os princípios
fundamentais da ascese cristã em benefício tão
somente de novos valores sociais, é uma prova muito evidente de
que não está convertido. O convertido pensa como o
Concilio Vaticano II, nesta feliz expressão: “Caracteriza-se
a Igreja de ser, a um tempo, humana e divina, visível, mas
ornada de dons invisíveis, operosa na ação e
devotada á contemplação, presente
no mundo e no entanto peregrina. E isso de modo que nela o humano se
ordene ao divino e a ele se subordine, o visível ao
invisível, a ação à contemplação e o presente á cidade futura que
buscamos.” (S.C.n°2).
Prezado candidato a Monge pensa em tudo isso, decide-te, não
avances numa aventura para a qual não estejas bem equipado. Se
gostares do convívio social, ou do rebuliço do povo, ao
invés de estar silente e retraído, certamente que
não tens vocação de Monge. Mas, isto não
quer dizer que não possas realizar-te em alguma
congregação ou Ordem Religiosa que não seja
Monástica. Há muitos valores na vida ativa.
Que Deus te abençoe!
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