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Caro
vocacionado, em fase de discernimento, pretendemos abordar, neste
numero 3, um ponto muito importante do seguimento de Jesus Cristo.
Nossas colocações cheiram a vida monástica, mas,
também pudera, e são válidas até para os
que não desejam ser monges. Vamos tratar da escolha da
vocação e do abandono do lar, da família, amigos e
outros laços que prendem o nosso coração.
No Evangelho de Mateus e Marcos nós encontramos o seguinte, que
Lucas também narra muito bem: Enquanto caminhava, um homem lhe
disse: “Senhor, seguir-te-ei para onde quer que
vás” Jesus replicou-lhe: “As raposas têm covas, e as aves
do céu, ninhos, mas o filho do homem não tem onde
reclinar a cabeça” (Lc.9,57-58).
Ao que tudo indica o candidato ficou desiludido quando
soube que Jesus não tinha uma casa, uma vez que o texto
não fala mais no tal jovem. Configura-se com certa
evidência, o que foi dito no Discernimento n° 1, quanto ao
procurar a Congregação ou Ordem mais rica. Acontece que
muita gente pensa ganhar estudos e formação
gratuitamente, depois levantam vôo e retornam aos familiares;
muitos desses ficam bem de vida e nunca mais ajudam a Igreja ou a
comunidade que lhe custeou os estudos. Mais ou menos como aquele
moço para quem Jesus falou, certamente percebendo sua
intenção, que não tinha onde reclinar a
cabeça e já o “tirou do ar.” Provavelmente o rapaz queria
colocar-se bem na vida, materialmente falando, como aconteceu com
aquela mãe que pedia um lugar de destaque para os filhos no
reino de Jesus. É perigoso escolher uma vida Religiosa
baseando-se na segurança financeira. No entanto seria
desejável que houvesse possibilidade de todos os candidatos ao
sacerdócio ou vida Religiosa em geral, receberem, também,
o preparo de uma profissão civil rentável, objetivando
garantir sua sustentação. Não sabemos de outros,
mas o programa dos Monges Cecilianos prevê, em alguns casos, o
exercício de uma atividade remunerativa. e permite que, mesmo
tendo os votos, exerça e faça correto uso do dinheiro em
conformidade com a Santa Regra e os Superiores. Claro que casos dessa
natureza são estudados e, certamente, serão
raríssimos.
Retornando ao Evangelho de Lucas, após o episódio desse
moço, Jesus convidou outro. “Segue-me!”
disse. O homem, talvez um jovem, respondeu-lhe: “Senhor,
permite-me ir primeiro enterrar meu pai”. Mas Jesus disse-lhe: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém,
vai e anuncia o reino de Deus.” (Lc 9, 59-60) Um outro
ainda disse-lhe: “Senhor, seguir-te-ei, mas permite
primeiro que me despeça dos que estão em casa.” Mas Jesus disse-lhe:“Aquele
que põe a mão no arado e olha para trás,
não é apto para o reino de Deus.” (Lc.9,61-62).
Para Jesus o desapego de familiares é sumamente importante.
Desapego não significa esquecimento, ou dar às costas aos
parentes e amigos. O amor à causa do Reino é mais
importante e o coração de alguém que abraça
tal condição, deve ser indiviso para consumar isso. Jesus
mesmo já havia dado exemplo quando, aos 12 anos, separou-se de
seus pais na ocasião em que foram à Jerusalém, e
ficou no Templo, entre os doutores “ouvindo-os e
interrogando-os” e quando os pais o encontraram e Maria disse lhe: “Meu filho que nos fizestes? Eis que teu pai e eu
andávamos à tua procura cheios de aflição”
Respondeu-lhes ele: “Não
sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Cf.Lc. 2, 46-49) Importante que o texto diz que
eles “não compreenderam o que ele lhes dissera.”(
Lc. 2,50).
Não é para admirarmos se nossos familiares também
não entendam e às vezes até fiquem revoltados. Por outro lado, ponderemos que o bom
vocacionado, normalmente, tem sensibilidade de coração e
de afetos. Aliás, quem for insensível, terá
dificuldade em consagrar-se ao Cristo da ternura e do amor. Pode ser
que algum passe no crivo, mas, depois aparecem aqueles Religiosos
durões e massacradores como carrascos. Faltam-lhes sensibilidade
e ternura e sendo assim, colocam em jogo as pastorais. Prosseguindo:
quem tem sensibilidade apega-se facilmente e de modo muito especial aos
de sua família ou de novas famílias que o acolhem.
Imaginamos que Jesus não fosse insensível, tão
pouco desejasse que seus seguidores o fossem. Por isso ter a
disposição interior de abandonar a família,
não quer dizer que não possa visitá-la,
comunicar-se com ela e recebe-la em visita, eventualmente. Mas, Jesus
é exigente quanto ao desprendimento dos laços familiares
chegando a exclamar: “Quem ama seu pai e
sua mãe, mais que a mim, não é digno de
mim”(Mt.10,37) Mais
adiante ele até faz uma promessa para o candidato: “E todo aquele que, por minha causa, deixar irmãos,
irmãs, pai, mãe, filhos, terras ou casa, receberá
o cêntuplo e possuirá a vida eterna.” (Mt.19,29) (cf.Mc.10,17-31 e
Lc. 18,18-30).
Os amores carnais, ou afetos e prazeres da vida civil ou mundana,
não condizem com o verdadeiro e bom seguidor de Jesus. Na hora
do discernimento o vocacionado deve considerar que raramente
alguém conseguiu a façanha de desprender-se totalmente do
mundo, em pouco tempo. Não é que devemos ser Monges
já logo ao entrar na vida Monástica, vamos lá para
aprendermos a ser. Tão pouco alguém conseguirá
entrar no convento para ser freira, sendo já uma delas, Sabemos
que as boas Religiosas lutam muitos anos para adquirir tais virtudes. O
seminarista que entra para um seminário não tem, via de
regra, a maturidade espiritual dos sacerdotes que ali trabalham, mas
entrou para formar-se, isto é, para aprender a colecionar
virtudes. (ao
invés de latinhas de cerveja como fazem alguns).
O
treino deve ser constante e continuo. As afeições devem
ser canalizadas para consumar o que pregava o Apóstolo Paulo: “Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e
não as da terra.” (Col.3,2) Depois de alguns anos pode ser
mais fácil incluir-se naqueles que o Apóstolo Paulo, no
seguimento do texto, diz: “Porque estais mortos e a vossa
vida está escondida com Cristo em Deus” (Col.3,3).
O Religioso deve estar interiormente, disposto a renunciar o mundo com
seus prazeres, diversões e seus amores. Não é
verdade aquilo que, na modernidade, chamam de entrosamento e
participação na vida mundana das pessoas, a despeito de
“pastoreai-las” para Jesus Cristo, quando ele próprio manda o
contrário de tudo isso. Logo, levar uma vida assim é
antagônico ao seu Evangelho e sua mensagem. Não importa o
cargo que exerça, ou grau de hierarquia, é
possível ter falhas e ser imperfeito mesmo em
condições superiores no Povo de Deus. Não sirvam
os escândalos e as fraquezas de Religiosos ou sacerdotes, de
desmotivação para que busques o caminho da
perfeição do Evangelho. Se procurares uma
Congregação ou um Mosteiro, não queiras levar os
costumes do mundo, nem pretendas que os que ali vivem convencidos de
sua vocação, devam mudar seu rumo e seu ideal só
pelo fato de você ir conviver com eles. Já
fizeram cursos, encontros e seminários onde aprenderam diferente
do que ficou dito aqui, portanto, tens duas saídas: ou esquece
tais aprendizados, ou deixes a instituição. Se entrares
no Mosteiro para pretender mudar as Regras, ou se mude ou escreva uma
Regra para si.
Ser Religioso (a) implica em exigências que transcendem ao
trivial da vida das pessoas.
Você jovem que lê,
está disposto a buscar e trilhar por esse caminho?
Nós não esperamos que
você já seja perfeito, só queremos que você
tenha consciência de suas imperfeições e vontade de
mudar. Que você venha disposto a desligar-se da família de
sangue, para conjugar esforços e somar forças na
família espiritual que segue Cristo. Que sua religiosidade
não seja ideológica, mas que aprenda a fazer da
Religião o ideal para atingir Jesus. Que você abandone o
mundo como prazer, para abraçá-lo como espaço
físico de sua realização dos planos mais elevados
da Redenção, para cujo trabalho sentiu o chamado.
Qualquer que seja a sua opção, se os conteúdos
deste Manual lhe foram úteis, o objetivo foi atingido.
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