XVII Domingo do Tempo Comum
– Ano B
Ir. Doutora Deolinda Serralheiro
Magnanimidade
de Deus
A liturgia da palavra deste domingo
fala-nos da magnanimidade de Deus, que nos enche de todos os bens,
temporais e,
sobretudo, espirituais. Esta generosidade divina contrasta com a nossa
tacanhez, sobretudo quando nos fechamos no nosso egoísmo e
não ouvimos os
gritos da humanidade, carente de tudo, até do mais essencial,
que é o pão de
cada dia. A palavra garante-nos que Deus se oferece a nós, a
cada pessoa e à
humanidade em geral e que, se confiarmos nele, nada nos pode faltar.
Ele abre
as suas mãos e sacia a nossa fome, como canta o salmo 145.
Na
primeira leitura, vemos o profeta Eliseu a saciar a fome a cem
pessoas, apenas com vinte pães, porque o Senhor lhe disse: “Dá-os a comer a essa gente. Comerão e ainda
há-de sobrar”. No evangelho, João fala-nos de um
prodígio ainda maior:
cinco mil homens ficaram saciados com cinco pães de cevada e
dois peixes. E
ainda sobrou pão. O milagre da abundância opera-se, porque
estes cinco pães
passaram pelas mãos de Jesus, como outrora os vinte pães
tinham passado pelas
mãos do profeta Eliseu, por ordem de Deus.
Será
que há, ainda hoje,
profetas que façam passar os seus bens pelas mãos de
Jesus? Cristo, habitando
no meio dos homens e mulheres do nosso tempo, é Ele mesmo o
pão integral
(total), que mata todas as fomes do mundo, as do corpo e as do
espírito. Os
cristãos, que “praticam” verdadeiramente Jesus Cristo, sabem
alimentar-se dele,
diariamente, comendo o pão da Palavra e da Eucaristia. Aprendem
com este Pão a partilhar
tudo o que têm com os demais. Hoje, não há
ninguém que não se aperceba das
profundas desigualdades sociais. Há cada vez mais pobres, e,
cada vez, mais
ricos, abarrotando de todos os bens. Multiplicam-se os apelos de
solidariedade,
fazem-se campanhas de rua, abrem-se bancos alimentares contra a fome,
mas as
imagens que nos chegam e as notícias que vamos lendo indicam-nos
que, cada dia,
morrem milhares de pessoas, sobretudo crianças, por falta de
nutrição. Há quem
pense resolver o assunto, combatendo a natalidade. Contudo, o problema
não se
encaminha por aí. É necessário que cresça a
caridade cristã, à qual se chama,
vulgarmente, solidariedade.
Na
segunda leitura, Paulo recomenda aos cristãos que vivam de tal
modo
Cristo, que manifestem ao mundo que há um só Pai, Deus,
que “actua em todos e em todos se encontra”.
É, exactamente, este testemunho de que há um só
Pai e de que todos somos irmãos
e irmãs, iguais em direitos e deveres, que o cristão
é chamado a dar, pela
partilha pessoal e pelo apelo aos outros, para que partilhem,
também, não só
daquilo que lhes sobra, mas do que lhes faz falta, aprendendo a viver
na
sobriedade para uma maior caridade. Se todos aprendermos a partilhar
como
Jesus, entregando-lhe os nossos “cinco pães e os dois peixes”,
isto é, tudo
aquilo que temos e somos, Jesus encarregar-se-á de nos ensinar a
matar a fome
espiritual e corporal a todos os irmãos e irmãs de quem
nos quisermos fazer
próximos. Porque todos comerão e ainda há-de
sobrar, prometeu o Senhor. A mesa
da Eucaristia está sempre posta e o convite de Jesus para este
banquete
dirige-se a todos. Tenho fome deste pão? A partilha
eucarística impele-me à
partilha fraterna?
____________________________________________
Leituras
do XVII Domingo do Tempo Comum
2
Reis 4,42-44; Sl 145 (144); Ef 4,1-6; Jo 6,1-15
____________________________________________
XVI Domingo do Tempo Comum
– Ano B
Ir. Doutora Deolinda Serralheiro
Bom
pastor
Na
liturgia deste
domingo, o Senhor apresenta-se-nos como o bom pastor, pronto a cuidar
do seu
rebanho e a prestar-lhe toda a assistência de que carece. Jesus
ensina-nos o seu
jeito de ser pastor, de conduzir as pessoas à unidade e à
paz, à reconciliação
e ao encontro com o Pai. Cura o nosso nervosismo e
agitação, a nossa pressa e
correria, que nos fazem esquecer o cuidado de sermos atenciosos e bons
ouvintes
dos nossos irmãos e irmãs.
O
profeta Jeremias, na primeira leitura, como porta-voz de Deus,
queixa-se dos
pastores de Israel, não dos que andavam pelas montanhas a
guardar as ovelhas,
mas, em jeito de alegoria, refere-se aos reis e sacerdotes do tempo, os
condutores do povo, porque dispersam as ovelhas, em vez de as reunirem,
e as
escorraçam, em vez de terem cuidado com elas. Por isso, Deus
intervém para
reunir o “resto” das ovelhas, prometer “um rebento justo”, que
há-de “governar
com sabedoria”. O Senhor promete bons pastores e, sobretudo, um bom
pastor, que
será um rebento de David. Esse pastor “será
um verdadeiro rei”, que promoverá a unidade entre as
ovelhas, será
solícito pela justiça, o amor e a paz. Encontramos nesta
promessa uma clara
alusão a Jesus Cristo, o bom pastor. Os humildes de Israel foram
vivendo na
esperança deste pastor e cantavam o Salmo 23, que nós
hoje podemos repetir:”O
Senhor é meu pastor, nada me falta”.
No evangelho, Jesus, o bom pastor,
convida-nos a ir com Ele e a descansar um pouco. Estamos em tempo de
férias. Passar
as férias com Jesus é sumamente reconfortante. Este
convite é, sobretudo,
dirigido aos evangelizadores, sacerdotes ou leigos, que se afadigam,
excessivamente, com mil e uma tarefas diárias e que tanto
precisam de repousar
e de repousar com Jesus, isto é, aproveitar o tempo de
férias para uns dias de
retiro ou para tempos mais prolongados de oração, de
convívio ou de leitura. É
certo, que o descanso de Jesus com os discípulos durou pouco
tempo, porque ao
desembarcarem, logo a multidão os procurou. Ao ver toda aquela
gente, Jesus
compadeceu-se, porque eram como ovelhas sem pastor. O modo de Jesus se
compadecer levo-a a ensinar as pessoas, a dar-se totalmente a elas. De
que
jeito me compadeço eu dos outros? Lamento as suas
desgraças e passo ao largo,
ou coloco-me ao seu serviço, como Jesus, para os ajudar a
libertar?
Paulo,
na segunda leitura, explica a acção de Cristo pastor, que
reúne, em oposição
aos antigos pastores de Israel. “Foi
Ele que fez de judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da
inimizade que os
separava.” Foi pela cruz, que Jesus reconciliou com Deus todos
os povos,
reunindo-os no seu Corpo e dando-lhes a possibilidade de se aproximarem
do Pai,
no Espírito Santo. Cristo é, de facto, a nossa paz.
Trabalhar no
estabelecimento da paz e da justiça, é uma tarefa
primordial. Como me situo eu
face a esta tarefa, no meio de tantas divisões? Anuncio a boa
nova da paz pelo
meu ser e agir? Numa sociedade dividida, em que é mais comum
divulgar más
notícias, más famas… construo a paz, ergo pontes, integro
as pessoas, dialogo?
____________________________________________
Leituras
do XVI Domingo do Tempo Comum – Ano B
Jr
23,1-6; Sl 23 (22); Ef 2,13-18; Mc 6,30-34
____________________________________________
XV Domingo do Tempo Comum
– Ano B
Ir. Doutora Deolinda Serralheiro
Actividade
profética
A liturgia deste domingo coloca-nos, de novo, diante da
actividade profética e missionária.
A
primeira leitura apresenta-nos uma rejeição do profeta
Amós, por parte do sacerdote Amásias de Betel, onde o
altar, anteriormente erguido ao Deus de Israel, foi transformado num
santuário pagão, pelo rei Jeroboão I. Aqui se
faziam peregrinações e se organizavam
celebrações religiosas e festas luxuosas, às
expensas dos mais pobres. Amós foi chamado pelo Senhor para
profetizar a este povo de Israel. Ele sente que foi Deus que lhe
pôs a Palavra na sua boca para denunciar esta ruptura da
Aliança, assim como as injustiças, o luxo e a
corrupção, que alastravam entre o povo. Denuncia a
divisão social existente: por um lado, a classe alta, que vivia
à custa dos “humildes” e, por outro, os criados, os
órfãos e as viúvas, que eram explorados e
injustiçados pelos primeiros. O profeta estava a mais, porque
era voz dos sem voz, sem terra, sem defesa. Por isso, tornou-se “pessoa
não grata” face aos importantes, que o convidam, agora, a
retirar-se e a regressar à sua terra, de modo a não os
incomodar mais.
No evangelho, Marcos conta-nos como os doze receberam de
Jesus o mandato missionário e profético. Recomenda-lhes: “Se
os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o
pó dos vossos pés como testemunho contra eles”,
porque esta pode ser, realmente, a sorte dos que anunciam boas novas e
denunciam os erros. Esta ideia de rejeição aproxima
Amós dos doze, porque juntos são chamados ao
anúncio profético e estão sujeitos a ser
“expulsos” pelo povo a quem são enviados. No texto podemos
aperceber-nos das condições apresentadas por Jesus para
que os discípulos exerçam, com ética e fé,
a sua missão: envia-os dois a dois, para apoio mútuo e
testemunho de fraternidade; ordena-lhes que não levem nada para
o caminho, a não ser o bastão, para que se abandonem,
totalmente, à providência de Deus, o que exige fé
na Palavra; dá-lhes poder, simbolizado no bastão, porque
a Palavra de Deus é eficaz; manda-os permanecer numa localidade
ou sacudir o pó dos pés, onde não forem aceites,
porque Deus não se impõe, é tolerante e respeita a
liberdade de cada um, assim como as diferentes opções
religiosas; finalmente, os discípulos partiram e pregaram,
porque não se pode ficar apenas no desejo e nas boas
intenções. Jesus Cristo pratica-se pela palavra e pela
acção.
A actividade profética e missionária
obedecem ao plano salvífico de Deus para com o seu povo e exigem
um suporte doutrinal sólido e esclarecido. Por isso, encontramos
na segunda leitura, um belo texto da carta aos Efésios, onde
Paulo apresenta elementos essenciais da nossa fé: por meio de
Jesus Cristo, somos abençoados e chamados a ser filhas e filhos
adoptivos de Deus, recebemos a remissão dos nossos pecados e a
sabedoria, para podermos conhecer a vontade de Deus, recebemos a
palavra da verdade, o Evangelho, que nos conduz à fé, e
fomos marcados pelo Espírito Santo, que é a garantia da
nossa herança gloriosa.
____________________________________________
Leituras do XV Domingo do Tempo Comum – Ano B
Am 7,
12-15; Sl 85 (84); Ef 1,3-14; Mc 6,7-13
____________________________________________
XIV Domingo do Tempo Comum
– Ano B
Ir. Doutora Deolinda Serralheiro
Profetas e das profecias
A
liturgia deste domingo fala-nos dos profetas e das profecias.
Não dos falsos profetas que anunciam o futuro, de forma
espectacular, mas dos verdadeiros profetas, que recordam ao povo a
mensagem da salvação, já revelada, e lhes apontam
o caminho a seguir para serem felizes e darem alegria ao Senhor.
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel, ao mesmo tempo que sente o
imperativo de cumprir a sua missão, tem também uma
dúvida interior: Que adianta pregar a um povo que não
quer escutar? Não será perder tempo? Mas o
Espírito do Senhor ajuda-o a assumir as suas responsabilidades,
segredando-lhe interiormente: “Podem escutar-te ou
não – porque são uma casta de rebeldes – mas
saberão que há um profeta no meio deles”. Porque
pôs o dedo na chaga, lançou pedras no charco, foi ousado e
atrevido, em nome de Deus, Ezequiel sentiu-se rejeitado pelo povo. Esta
é a sorte de todos os profetas!
No
evangelho, Marcos fala-nos das dificuldades que o próprio Jesus
teve de enfrentar, para cumprir a missão que o Pai lhe confiara.
Ele é o verdadeiro profeta e mais do que profeta! Ele é a
própria Palavra do Pai. Jesus não é um homem
espectacular, nem realiza prodígios para ser aplaudido.
Está na sua terra natal e, aí, todos sabem que ele
é carpinteiro, filho de José e conhecem bem Maria, a sua
mãe, assim como os seus familiares mais próximos,
chamados de “irmãos”. Que trará de novo um homem jovem
que sabe menos do que eles? À partida, está rejeitado!
Mas a verdadeira causa desta recusa é que as suas palavras
abalam as estruturas vigentes e contestam as falsas
interpretações da Lei de Deus. São palavras
revolucionárias demais para os que estão excessivamente
acomodados!
Paulo na segunda leitura, cansado de tantas
perseguições e lutas, queixa-se ao Senhor da sua
fragilidade, que ele pensa ser um impedimento à
pregação do Evangelho. Mas o Senhor diz-lhe: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza
que se manifesta todo o meu poder”. Paulo compreendeu e
ajuda-nos a compreender que não são os fortes e os
poderosos que Deus chama à profecia, isto é, ao
anúncio do Evangelho, mas os fracos. É, exactamente, este
sentimento de fragilidade, diante da tarefa a cumprir, que desenvolve
em nós o sentimento de humildade e nos leva a perceber que
é o Senhor que actua através de nós, seus
instrumentos. A nossa palavra e acção são tanto
mais eficazes, quanto mais nos sentirmos frágeis e pequenos e
mais confiarmos na força de Deus. O importante é que as
perseguições, calúnias ou rejeições,
que temos de suportar, não nos façam depor as armas do
bom combate pela causa de Deus e da sua Palavra.
Pelo baptismo, cada cristão/ã participa da
missão profética de Jesus. Tenho consciência disso?
Sinto-me em paz e sou feliz quando me rejeitam por causa do
anúncio e da vivência do Evangelho? Habitualmente, procuro
solidarizar-me com os mais fracos, os rejeitados, os criticados, ou, ao
contrário, sou inclinado/a a agredir, mal dizer, caluniar? Sou
rebelde ou obediente ao Espírito do Senhor? Exerço a
minha vocação de profeta, sem temor, apenas confiado/a na
força de Deus?
____________________________________________
Leituras do XIV Domingo do Tempo Comum
Ez 2,2-5; Sl 123 (122); 2 Cor 12,7-10; Mc 6,1-6
____________________________________________
*****************************************************************