|
II Domingo do Advento – Ano B
Deolinda Serralheiro
A liturgia deste domingo lança-nos um enérgico
apelo à conversão, à preparação do
nosso coração para acolher Deus que vem, em Jesus.
Afirma-nos que Deus está sempre pronto, e até desejoso,
de nos oferecer um mundo novo de liberdade, de justiça e de paz.
Porém, esse mundo só se tornará uma realidade
quando cada pessoa aceitar reedificar o seu coração,
abrindo-o aos valores de Deus.
A primeira leitura constitui uma mensagem de
consolação e de esperança, veiculada
através de palavras cheias da ternura do nosso Deus. O profeta
assegura aos exilados de Israel que Iavé é fiel e que
quer trazer de volta o seu Povo, em direcção à
terra da liberdade e da paz. Ao Povo, por sua vez, é pedido que
dispa os seus hábitos de comodismo, de egoísmo e de
auto-suficiência e aceite, outra vez, confrontar-se com os
desafios de Deus. Também nós nos sentimos apavorados
diante da violência e do terrorismo, que parecem imperar,
marcando a sangue a vida de tantos dos nossos irmãos e
irmãs, das doenças que a medicina não sabe curar,
do desprezo a que são votados os mais pequenos e fracos, enfim,
de uma sociedade que teima em se construir à margem de Deus e
contra Ele. Porém, a mensagem do profeta garante-nos que Deus
não está alheado da nossa história, mas continua a vir ao nosso encontro e a oferecer-se
para nos conduzir com amor e solicitude até à verdadeira
vida e liberdade.
No evangelho, João Baptista convida os seus
contemporâneos, e também a nós, a acolher o Messias
libertador, cuja missão consiste em oferecer a todas as pessoas
o Espírito de Deus, que gera vida nova e nos permite viver numa
dinâmica de amor e de liberdade. No entanto, só
poderá estar aberto à proposta do Messias quem tiver
percorrido um autêntico caminho de conversão, uma
transformação completa, por um estilo vital inteiramente
novo, colocando Deus no centro da sua existência e dos seus
interesses. O “estilo de vida” de João constitui uma
interpelação tão forte como as suas palavras.
É o testemunho vivo de um homem que está consciente das
prioridades e não dá importância aos aspectos
secundários da vida. A nossa vida também está
marcada por valores, nos quais apostamos, e à volta dos quais
construímos a nossa existência. Quais são os
valores fundamentais que marcam as minhas decisões e
opções? Como me situo frente a valores e a um estilo de
vida que contradiz, claramente, os valores do Evangelho?
A segunda leitura aponta para a segunda vinda de Jesus.
Convida-nos à vigilância, isto é, a vivermos de
acordo com os ensinamentos de Jesus, empenhando-nos na
transformação do mundo e na construção do
Reino. A certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem
um projecto de salvação e de vida para cada pessoa e que
esse projecto está a realizar-se, continuamente, em nós,
até à sua concretização plena, quando nos
encontrarmos definitivamente com Deus. Os crentes são, pois,
homens e mulheres de esperança, abertos ao futuro, já
nesta terra, com fé e amor, mas sobretudo a um futuro a esperar,
como dom de Deus, «os novos céus e a nova terra»
onde habitam a justiça e a paz.
_____________________________________________________________________
Leituras
do II Domingo do Advento – Ano B: Is
40,1-5.9-11; Sl 85 (84); 2 Pd 3,8-14; Mc 1,1-8
_____________________________________________________________
I Domingo do Advento – Ano B
Deolinda Serralheiro
As
ruas das nossas cidades começam a ficar ornamentadas com
abundante iluminação e, tanto os pequenos como os grandes
espaços comerciais, regurgitam de prendas, de enfeites e de
gente. Algo se anuncia, como tendo um grande impacto sobre as pessoas,
as famílias e as comunidades. Todos percebemos que vem aí
o Natal. É por isso que a Igreja nos propõe uma
preparação de quatro semanas, à qual chamamos
ADVENTO, o qual abre o novo ano litúrgico. Começa com
este domingo. A liturgia da Palavra fala-nos da esperança
cristã, que é preciso activar, para que recebamos a
salvação/libertação de Deus, que nos vem
pelo nascimento de Jesus Cristo. Ajuda-nos a tomar consciência da
nossa impotência em conseguirmos, só por nós, esta
salvação/libertação dos males que nos
oprimem, e convida-nos à vigilância, porque o Deus fiel
pode chegar até nós a cada momento. Podemos falar de uma tríplice vinda do Senhor. Na primeira,
o Jesus apareceu na terra e conviveu com as pessoas; na última, todo o ser humano verá a
salvação do nosso Deus e contemplará Aquele que
trespassaram; a intermédia é oculta e
só os eleitos a vêem em si mesmos, e por ela salvam as
suas vidas.
O
evangelista do novo ano é Marcos, que nos dá um
«empurrão», exortando-nos à vigilância,
porque não sabemos quando chegará o Senhor. O Senhor
Jesus já veio há dois mil anos, na humildade de uma
criança, virá para cada um de nós no termo da
nossa vida, com todo o esplendor da sua glória, e vem,
espiritualmente, pelo poder da sua graça, a cada pessoa que
esteja desperta e com atenção à vida. É
preciso que estejamos «acordados», sabendo descobrir a
presença activa do amor de Deus, que se manifesta nos
acontecimentos e nas pessoas e colaborar com Ele na
transformação das sociedades e das culturas, de modo a
que reproduzam mais a beleza, a bondade e a verdade divinas.
Na
segunda leitura, Paulo exulta pelas maravilhas que a graça de
Deus operou na comunidade de Corinto e assegura-nos que Deus é
fiel às suas promessas e, por isso, também nos
há-de enriquecer a nós, que esperamos em Jesus Cristo,
até chegarmos à plena comunhão com Ele. A
esperança é essa certeza de que os dons de Deus actuam em
nós à maneira de fermento, fazendo-nos crescer em
santidade no dia a dia da nossa vida.
Na
primeira leitura, o profeta Isaías, certo de que o povo de
Israel era impotente para, por si só, se libertar da
servidão do êxodo, pede ao Senhor que «rasgue os
céus e desça» para o salvar. Esta foi a expectativa
dos que nos precederam na fé. Jesus Cristo é, na verdade,
o futuro pessoal de cada um de nós, como o é da
história e dos povos. Foi o futuro do povo de Israel e continua
a ser, hoje, o futuro da Igreja e de toda a humanidade. Ele é
futuro, não apenas porque vem do futuro, mas porque é
portador do nosso futuro, com a sua vinda. Acreditamos que o futuro de
Deus é melhor que o nosso presente? Já percebemos o
alcance e a importância do Mistério da
Encarnação? Já nos demos conta de que o presente
da humanidade se está a destruir, porque não se abre e
não acolhe o futuro, que é Jesus Cristo?
____________________________________________________________________
Leituras do I Domingo do Advento – Ano B
Is 63,16b-17.19b;
64,2b-7; Sl 80 (79); 1 Cor 1,3-9; Mc 13,33-37
____________________________________________________________________
XXXIII Domingo do Tempo Comum – A
Deolinda Serralheiro
A liturgia da
Palavra deste domingo torna-se mais veemente no anúncio do fim
dos tempos, simbolizado, desde sempre, pelo fim de cada ano
litúrgico. As três leituras têm um tom
escatológico e sublinham a precariedade da vida terrena, pois
é efémera e passageira. Contudo, é nela e por ela,
que temos acesso à vida eterna, em Cristo Jesus. Os textos
sublinham a necessidade que cada pessoa tem de viver a sua
própria vida com sabedoria, sabendo discernir os tempos e os
momentos, fazendo boas opções e tomando as melhores
decisões, de acordo com a lei de Deus, inscrita no seu
coração.
A primeira
leitura apresenta uma mulher como exemplo de vigilância e de
dinamismo em fazer render os dons recebidos. Ela é elogiada
publicamente, isto é, “às portas da cidade”,
porque é capaz de pensar e de agir, assumindo inteira
responsabilidade dos seus actos; não se poupa a esforços
para governar a sua casa e para se dedicar com amor aos seus
familiares. Embora apenas lhe sejam imputadas tarefas caseiras (eram
essas que na circunstância histórica eram confiadas
à mulher), o importante é perceber o exemplo da mulher
que vive na lei do Senhor e põe a render os seus talentos,
qualquer que seja a sua missão. É curiosa a actualidade
deste texto, escrito por volta do ano 800 a.C., numa Igreja e numa
sociedade, onde a mulher procura ainda o lugar que o Criador lhe
confiou, porque continua a ser excluída de tarefas para as quais
está vocacionada.
No evangelho,
Jesus coloca-nos diante da nossa própria situação
existencial. A cada um de nós é confiada uma
missão na terra, que devemos realizar com sentido de
criatividade e de responsabilidade, fazendo render os dons
específicos com que o Senhor nos dotou. A parábola
interpela-nos no sentido de nos interrogarmos sobre o que estamos a
fazer para potenciar os dons que recebemos, a nosso favor e a favor dos
outros, do mundo, da sociedade, da comunidade cristã, da
família. É cada pessoa, individualmente, que há-de
responder diante de Deus pela gestão dos seus recursos pessoais.
Tanto nos preocupamos em gerir os bens materiais, em alcançar
rendimentos e lucros, e, por vezes, somos tão perdulários
no que concerne aos bens espirituais! No evangelho, Jesus avisa-nos de
que no nosso dia, o Pai nos pede contas da nossa
administração. E, a partir dela, podemos entrar
imediatamente na alegria do Senhor, ou ficar em estado de maior ou
menor espera dessa mesma alegria.
Na segunda
leitura, a mesma advertência é feita por Paulo, Não
andemos a dormir “como os outros, mas permaneçamos
vigilantes e sóbrios”, como filhos da luz que somos,
esperando a vinda do Senhor. Se, quanto às coisas materiais,
procuramos ser vigilantes, de modo a usufruir os melhores rendimentos
que nos são oferecidos pela banca ou pelas seguradoras, porque
não prestamos igual ou maior atenção à
insistente Palavra de Deus, quando nos apela a fazer render os bens
espirituais, que recebemos no baptismo e ao longo da nossa vida?
____________________________________________________________________
Leituras do
XXXIII Domingo Comum
Prov 31,10-13.19-20.30-31; Sl 128
(127); 1 Tes 5,1-6; Mt 25,14-30
____________________________________________________________________
XXXII Domingo do Tempo Comum – A
Deolinda Serralheiro
A liturgia
deste domingo fala-nos de “sabedoria” e, nesse contexto convida-nos à vigilância.
Interpela-nos no sentido de criarmos em nós um espaço
interior, feito de silêncio e de escuta, para percebermos os
apelos de Deus, em ordem às opções quotidianas
sobre a nossa vida. As “desgraças”, de que somos vítimas,
são muitas vezes a consequência de uma vida irreflectida,
jogada ao acaso, vivida sem sabedoria.
A primeira leitura faz um elogio da própria sabedoria e sublinha
a sua origem, a sua natureza, as suas qualidades, os seus dons e a sua
acção cósmica. Nesta leitura, a sabedoria é
descrita como uma pessoa que se põe em movimento, tendo como
referência o movimento das pessoas que vêm na sua
direcção. É a sabedoria que toma a iniciativa, se
adianta à acção da própria pessoa,
procurando elevá-la. O autor sagrado afirma que a sabedoria
é mais do que um corpo de doutrina Ele identifica-a com Deus,
que solicita o ser humano e se lhe quer dar a conhecer. A sabedoria, sendo um dom gratuito e incondicional
de Deus, é um caso paradigmático da forma como Deus se
preocupa com a nossa felicidade e põe à
disposição dos seus filhos e filhas a fonte de onde jorra
a vida definitiva. A nós resta-nos estar atentos, vigilantes e
disponíveis para acolher, em cada instante, a vida e a
salvação que Deus nos oferece.
No
evangelho, Mateus apresenta-nos mais uma parábola de Jesus, que
ilustra dois tipos de pessoas: as que se deixam conduzir pela sabedoria
e as que se subtraem à sua influência. As primeiras
são prudentes e tomam as melhores opções; as
segundas vivem ao sabor da corrente da vida, são insensatas e
recolhem desilusões sobre desilusões. Assim como as
virgens prudentes não puderam repartir com as outras do “seu
azeite”, também uma pessoa sábia, não pode
transmitir a sabedoria a outra pessoa, que não a procure
atempadamente. O texto lembra-nos que
“estar preparado” para acolher o Senhor que vem significa viver no
dia-a-dia a fidelidade aos ensinamentos de Jesus e o compromisso com os
valores do Evangelho, pois só estes nos asseguram a
participação no banquete do Reino.
Na
segunda leitura, Paulo aviva a nossa compreensão sobre as coisas
do fim dos tempos, garantindo aos cristãos de Tessalónica
que Cristo virá de novo para concluir a história humana e
para inaugurar a realidade do mundo definitivo, para que
eles não vivam contristados como os outros, que não
têm fé nem esperança.Todo
aquele que tiver aderido a Jesus e se tiver identificado com Ele
irá ao encontro do Senhor e permanecerá com Ele para
sempre. Temos, ainda, vivo o memorial dos defuntos, daqueles que
nos precederam e estão já na glória de Deus, ou
ainda vivem em estado de purificação. Nesta
crença, todos partilhámos os mesmos sentimentos e
realizámos os mesmos rituais, elevando, simultaneamente, preces
e súplicas a Deus, para que eles repousem em paz e possam
contemplar o mais breve possível a glória divina. Todos
aspiramos a que o epílogo da nossa vida seja feliz, bem
sucedido, por isso é indispensável aprender a viver na
sabedoria e na vigilância.
____________________________________________________________________
Leituras do XXXII Domingo Comum
Sb 6,12-16; Sl 63 (62), 2-8; 1 Tes
4,13-18; Mt 25,1-13
___________________________________________________________________
|
|