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Contemplação
V
A contemplação de Deus no mundo deverá consumar-se levando em
consideração vários fatores que o mundo
cientificista desconhece.
Comecemos pela admiração e exaltação da
Obra de Deus na própria natureza. "Narram os
céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de
suas mãos." (Sl. 18,2) O verde das matas, o azul infinito do
céu, o pontilhado de luzes das noites rurais, as montanhas, os
rios e cachoeiras, cantam um hino constante de louvor a Obra
inestimável do Criador. Quem não admiraria o Onipotente
ao aproximar-se das cachoeiras de Foz do Iguaçu? Quase
espontaneamente somos levados a cantar o “Credo in unum Deum”
e a exclamar com o salmista: "Senhor, meu Deus, são
maravilhosas as vossas inumeráveis obras e ninguém vos
assemelha nos desígnios para conosco" (Sl.39,6).
Num outro momento contemplamos a Deus, compartilhando com Ele a
caminhada de nossa própria existência, vendo-o nos
acontecimentos comuns do dia a dia. O povo de hoje acostumado a olhar
os acontecimentos à luz da ciência, não tem outra
resposta a não ser científica, para coisas muito simples
como p. ex, o porquê deixamos de viajar num ônibus, que
logo mais sofreu acidente ou o motivo de uma longa enfermidade, a que,
certamente, terão outras tantas desculpas clínicas.
Cientificamente foi tudo casualidade, e a doença foi descuido
alimentar ou algum exagero de qualquer natureza. A ciência
trabalha por hipóteses, e não tem como meta explicar o
transcendente e o inexplicável. Deus é que conduz-nos
para a conversão por caminhos incompreensíveis, usa a
nossa fraqueza para mostrar sua força e irradia sua luz para o
amadurecimento da vida, para expiar uma culpa etc. Na verdade a
contemplação acontece, também, quando nos tornamos
sensíveis ao Amor de Deus, e tomamos consciência de que
somos guiados por sua mão divina. "Meus olhos
sempre fixos no Senhor, porque ele livrará do laço os
meus pés" (Sl.24,15). Os modernos perderam a
noção da simplicidade. A ciência explica tudo, o
dinheiro resolve os problemas, e o consumo sacia todos os desejos do
homem. Isto é o mundo. Todos se tornaram materialistas ou
materializados, vítimas das conseqüências funestas do
progresso, que exalta a grandeza e a façanha do homem em
detrimento da mão de Deus seguindo e guiando o próprio
homem.
Se conseguirmos ver a mão de Deus, mais amiúde no
quotidiano, sem dúvida que emerge do nosso interior um hino de
gratidão ao Senhor por tudo que ele faz em cada um de
nós. Realiza-se naturalmente a contemplação, ainda
mais quando está arraigada em nós a fé, e a
palavra da Escritura integra o "pão nosso de cada
dia..." Ver Deus em nós, em primeiro lugar, e depois ver o
Deus no próximo, tal como a parábola do Bom Samaritano.
Dilata-se a caridade, aumenta a fé e a confiança e o
homem dobra-se mais facilmente diante da Obra de Deus. Este,
aliás, é o grande mandamento do Senhor.
A meditação constante da Sagrada Escritura foi a base da
contemplação Monástica desde seu início em
meados do século III até nossos dias. Fazer-se
contemplativo sempre foi o sinônimo de uma vida voltada para a
meditação bíblica e a oração, tanto
mental como literária, ora rezada, ora cantada por esses
povoadores do deserto. Diz-se, com acerto ou não, que os Monges
seguraram a Igreja no período decadente. Mas como? Eles
meditaram, oraram e contemplaram e assim plasmaram o mundo, eles
irradiaram luz brotada de suas orações,
penitências, jejuns e cantos que retumbaram nos quatro cantos do
deserto, assim aquele povo, que cercava seus mosteiros, usufruiu desse
elo maravilhoso com Deus e a Igreja orante tornou-se força e o
reino de Deus cresceu. Sementes jogadas ao longo do caminho floresceram
nos oásis dos desertos, e recriou-se a vida no oásis dos
corações ressequidos de Deus.
Como ir ao deserto em nossos dias? O mundo já é um
deserto, a superficialidade, a aridez, e a quantidade de massa, quase
inaproveitável, tormentas e outras intempéries
caracterizam o deserto do mundo. Assim como nos desertos, as camadas de
areia conservam água na profundidade, também no deserto
do mundo encontramos resquícios de vida mesmo lá onde
pareça impossível que ela exista. Eis o mundo! Ir a ele
é ir para o deserto. Nele sempre encontraremos um oásis,
e por debaixo de tanta dureza, sempre uma esperança de encontrar
vida. Cuidado com as miragens do deserto! Supõe-se que o Monge
é alguém esclarecido para não ser levado nessas
miragens ou ilusões que o deserto do mundo apresenta. “Ilusão das ilusões diz o Eclesiastes,
ilusão das ilusões! Tudo é ilusão." (Ecle.
1, 2). Contemplativo no mundo, realiza ao sair da lavra do mosteiro
e ir ao encontro dos profanos, escondido dentro de si no recolhimento
de uma forte e quase teimosa, convicção contemplativa de
prece, meditação e estudo, levando á cabo à
contemplação ou admiração de Deus,
arrastando após de si as multidões sequiosas desse mesmo
Deus. O Monge afasta-se do supérfluo, que os profanos tanto
endeusam, para que a ação melhor possa atingir seus fins,
renuncia o mundo para não ser mais um mundano entre os do mundo,
devolve ao mundo a força do Evangelho e enseja que o mundo
também viva um pouco mais do Deus encantado do deserto, pois
Deus está, também, nesse deserto e vive no
coração mais áspero e arenoso. O Senhor é
encontrado onde quer que o busquemos. "Se subir até
aos céus, vós ali estais; se descer ao Scheol, lá
vos encontrais também."
(Sl.138,9) O silêncio interior e a intimidade
com Jesus, identificando-se com seu plano de salvação,
que ele anunciou em estreita ligação com o Pai."...a fim de que sejam um como nós"
(Jo.17,11).
Lembra-te, ó caro
Monge, que tua piedade, tua contemplação e teu semblante
Religioso, por vezes pálido pelas vigílias e jejuns,
arranjarão adversários e inimigos. Consola-te com o
apóstolo que disse enfaticamente: “Assim também, todos aqueles que
quiserem viver piamente em Jesus Cristo
serão perseguidos.” (II Tm 3,12).
O mundo persegue todo aquele
que não entra no embalo de suas quinquilharias. Ele, o mundo,
não aceita que o jardim do Éden esteja reservado para
aqueles que buscam a presença de seu Deus, como nossos primeiros
pais antes do pecado. O Jardim do Éden para o mundo é
dinheiro, poder e sexo.
Ó caro Monge! Que luta!
Parabéns por tua dracônica coragem! Viva você de
fato, pois venceste! Que o Senhor te acolha dizendo: "Muito bem, servo bom e fiel, já
que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem
regozijar-te com teu Senhor"(Mt. 25,21)
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