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  Contemplação VI
Sobre o Silêncio.
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Contemplação VI sobre o silêncio

"Assim deves tu retirar-te ao secreto de teu coração, para implorar com mais eficácia o auxilio de Deus". (Imitação de Cristo Liv.III Cap 38)
Feliz és tu ó alma se conseguires permanecer em silêncio “porque o reino de Deus não consiste em palavras, senão em obras” (I Cor. 4,20) O mundo das palavras, com sua eloqüência, tão útil na evangelização, entretanto, perde muito do seu sentido ao tratar da profundidade espiritual e do contato com o Inefável. Na mesma evangelização, quando a Palavra de Deus, entrando pelo ouvido, passa ao intelecto, deste deve transpor-se ao limiar do infinito e penetrar o coração. É este quem fará o trabalho; na medida em que o sangue corre pelas veias, penetra a totalidade de Deus e inflama todo o ser, qual chama ardente e luminosa. É a luz de Deus com seu clarão. É dessa fonte que emana e infunde a divina sabedoria. A antiga e quase silenciosa formula de rezar, segundo afirmam, é proveniente dos Apóstolos, adotada nos Mosteiros Ortodoxos, desenvolve essa idéia. De tanto repetir a formula da oração, o monge chega até ao coração e quando ele dorme, cada batida desse órgão vital, é a própria oração e, dessa maneira, ele reza sem cessar, reza continuamente.
É o reino de Deus é encontrado, depois de muita procura, no silêncio misterioso de cada um. No silêncio orante a alma consegue encontrar-se com Deus. É Deus mesmo quem diz: “Atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração" (Os. 2,16).
No ermo, Deus fala. O grau superior do amor de Deus manifesta-se pelo gosto do ermo, do silêncio do deserto. “Jesus não se acha senão no deserto: Sua voz não ressoa nos lugares públicos” (Imitação de Cristo Cap.I) “Em silêncio,abandona-te ao Senhor, põe tua esperança nele" (Sl 36,7).O modelo desse abandono encontra-se no próprio Jesus,em sua passagem na vida terrena.Foi esse abandono que levou nossos Pais ao deserto para melhor fundirem seu espírito no sopro do Senhor. A solidão silenciosa do ermo induz à escuta do Pai. "Jesus percebendo que queriam arrebatá-lo e fazê-lo rei, tornou a retirar-se sozinho para o monte"(Jo.6,15) Que teria feito ele no monte? Descansou? Escondeu-se, tão somente? Não,ele orou e contemplou em êxtase.Mais adiante lemos em João 6,17 ss "Era já escuro e Jesus não se tinha reunido a eles. "Jesus retornou do monte caminhando sobre as águas, irreconhecível para os discípulos sendo obrigado a exclamar: "sou eu não temais"(Jo.6,20) Em Mateus 14,13 vemos, mais uma vez, Jesus retirando-se para um lugar deserto e Marcos 6,46 diz o que ele foi fazer:"e despedido que foi o povo, retirou-se ao monte para orar."
O reino de Deus, não consiste em palavras, mas em obras que são o desdobramento do inflamar divino em uma alma que conseguiu entrar dentro de si e silenciosamente tatear para encontrar o Senhor. Ao encontrá-lo exclama: " Ó Jesus! Falai a meu coração, daqui em diante só vossa voz quero escutar, no silêncio das criaturas; a Vós só ouvirei, meu divino Mestre; seja vossa santa palavra meu encanto no mundo e minha esperança para a eternidade."(Imitação de Cristo Cap.I)
A Imitação de Cristo proclama enfática: “Escreve,lê, canta suspira,
guarda silêncio, reza, sofre varonilmente a adversidade; a vida eterna merece ser comprada por estas ou outras maiores pelejas”(Liv II,Cap 47) O silêncio austero e voluntário, assumido de boa vontade pela mente, só adquiri força  como verdadeiro tornado, depois de haver descoberto que nele  está o segredo de encontrar a Deus.
Silêncio é ausência de barulho, do rebuliço e das miscelâneas dos que seguem as paixões. Silêncio é, também, ausência de muitos pensamentos ao mesmo tempo. Há um ruído interior, proveniente das muitas preocupações relativas ao mundo exterior. Muitas vezes pode estar quieto, sem balbuciar, sequer, uma palavra e nem por isso quer dizer que estejas em silêncio. Deves abismar-te no Senhor, sem descuidar aos irmãos que estão cerca, pois o silêncio não é desinteresse pelo próximo, mas fonte de irradiação e projeção do amor e da caridade. “O silêncio não é ausência, mas presença”
(Senhora do silêncio) A comunicação é sempre mais profunda quando nada dizemos e este silêncio se torna eloqüente.No silêncio conseguimos preencher vazios e ninguém transborda sem que antes tenha  enchido. O mundo de nosso tempo, em especial, está mergulhado e afogado na dispersão e corações dispersos não podem dar nem receber amor. Este é o motivo da grande crise que atinge a identidade pessoal de muitos. O silêncio é envolvente quando voluntário e deprimente quando circunstancial e não procurado. Quem está acostumado ao barulho, aos sons estridentes das grandes metrópoles, tem dificuldades em assimilar o silêncio; sente medo, pavor e tristeza. Por outro lado o ruído interior da ansiosa busca das vaidades e bens materiais, abafa os reflexos da luz do silêncio. Percebe-se que as águas calmas, silenciosas e tranqüilas são as que melhor podem espelhar as imagens e refletem o azul do céu e o branco das nuvens.
"Toda a criação esteja em silêncio diante do Senhor" (Zac. 2,13) pois, “É na conversão e no silêncio que está a vossa salvação...porém sem nada querer ouvir” (Is.30,15) Em silêncio diante do Senhor, por que  o silêncio é louvor, é presença estática, é adoração e a humildade de quem escuta, atitude de discípulo que nada quer perder do mestre. "Maria escolheu a parte melhor que lhe não será tirada” (Lc10,42) só pelo único fato de estar na escuta silenciosa de Jesus.
Ó caro Monge, acostuma-te a escutar Jesus, como Maria, que prostrada aos seus pés o escutava. Como João, o discípulo amado que escutava o coração do Senhor a palpitar.  Nessa escuta maravilhosa do Coração de Jesus, João tornou-se o evangelista místico, cujos escritos interpelam todos os Mestres de todas as seitas. Segundo Fílon, o silêncio equivale a luz branca que irradia, porquanto falar matiza a brancura" e quando falares, diga o que pensa, penses no que dizes e ao pensar deixa  transluzir o bem que se encontra no fundo de teu coração. Esquece a ofensa e perdoa para que o brilho de tua lâmpada jamais se apague! “Vê, pois que a luz que está em ti não seja treva. Se, pois todo o teu corpo estiver na luz, sem mistura de trevas, ele será inteiramente iluminado, como sob a brilhante luz de uma lâmpada”(Lc. 11,35-36).
Elias no Monte Horeb procurou o Senhor e este não estava no ruído do vento, nem na tempestade, mas na brisa suave e quase silenciosa. (cf. I Rs 19, 8-14)
Adão e Eva, depois do pecado, vendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e cobriram-se. No silêncio da culpa, acusada em suas consciências, “ouviram o barulho do caminhar do Senhor Deus no meio das árvores do jardim” (Gn 3,8) No silêncio e na quietude  acontece o fenômeno da descoberta. É quando o Monge descobre ou dá-se conta do seu estado e distanciamento ou aproximação de Deus. Nesse silêncio, quando acontece tal descoberta, começa o processo da contemplação pessoal em que o Monge percebe aquilo que disse Tertuliano: “Como pretende viver para os outros, quem não aprendeu a morrer para si mesmo?” Ninguém consegue levar a luz da evangelização, sem antes viver o evangelho interior. O próprio Jesus fez isso, foi ao deserto, lá foi tentado pelo demônio, sentiu a fraqueza humana na fome, na honra e no poder e consolidou a força de Deus na fraqueza humana.
Ó silêncio manancial eterno, fonte perene de encontro com Deus. Ó doce silêncio luz e sabedoria do Monge.
Maria, a Mãe de Jesus, é invocada como a "Mãe do silêncio" e seu silêncio confirmou-se com o Sim que trouxe ao mundo o Redentor. Essa Mãe do Redentor é silêncio que acolhe e que penetra até ao infinito oceano do mistério insondável do Deus Altíssimo, revelado ao pobre e mísero homem envolto no barulho das paixões e no ruído incômodo do pecado.
Silêncio dos lábios, sinal exterior do silêncio da alma. Deus, fala ao coração silencioso, pois ele não se encontra no ruído, nas muitas vozes dos falatórios, dos instrumentos dissonantes, e o encadeamento de sons desorganizados, ou dissonâncias. Tudo isso é sinal latente da dissociação universal e da catástrofe cósmica. Deus ai não se encontra.

"Em silêncio abandona-te ao Senhor" (Sl 36,7) É o silêncio da prática, da escola diária, da força de vontade e do espírito sobreposto à matéria. Trata-se de um treino, tanto mais complicado, quanto mais o discípulo estiver apegado ao mundo do ruído e das festas.
"Falai Senhor porque vosso servo ouve" (ISm.3,10) Porque só "Tu tens palavras de vida eterna"(Jo. 6,68)Assim deves exclamar, ó Monge, na tua sincera disposição de ouvir  a voz do Senhor que sussurra baixinho dentro de ti, no privilégio do silêncio físico e psíquico.
Essa escuta do Senhor, ouvir a  sua voz, que se manifesta em nosso interior, na forma de locução secreta, é essencial para o crescimento  do nosso espírito e aprofundamento do interior, tornando-nos homens espirituais. Essa escuta acontece na meditação contemplativa. "Quando orares entra em teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê nos lugares ocultos, recompensar-te-á"(Mt 6,6) Entrar no quarto é, também, entrar dentro de si, no fundo da alma.Também o salmista, seguindo a mesma linha exclama:"Pensai no silêncio de vossos quartos"(Sl.5,5).
O exercício dessa meditação contemplativa exige que estejamos sempre com nossos "corações ao alto" com o pensamento em Deus, abstraindo os do mundo e das coisas mundanas. “Solitário em presença de Deus verdadeiro, sem admitir pensamentos do mal” (São Macário o Egipcíaco) A clausura monástica e a abstenção do contato com as pessoas do mundo, propicia de maneira cabal esse estágio da espiritualidade.
É no silêncio o único meio do Monge conseguir o objetivo de só pensar em Deus, sem ele, as quinquilharias do mundo tomam conta, tal como a erva daninha sufocando o pé da flor.
Falou-se, acima, do ruído e do barulho das paixões. Não há nenhum exagero  em dizer que a pessoa passional, aquela que cultiva as paixões terrenas como grande proeza de estar vivendo bem a vida, desconhece o silêncio. O império dos instintos é barulho interior, é ruído psicológico, que se traduz em turbulência espiritual, desconcerto e caos da existência, mas também ruído exterior. Tais pessoas são mais chegadas aos programas de tv, gostam mais de músicas estridentes e um instrumental ruidoso. Costumam ouvir música todo o dia, quando não em volume elevado o fazem com seu auricular.
Quando se busca exageradamente os bens temporais, os prazeres da vida e se luta por ela acima dos valores espirituais, cria-se um ruído interior; perturbador, conflitante e na quase total desarmonia entre o homem espírito e o homem matéria.
O silêncio meditativo, aquele que contempla o Pai a começar de dentro para fora, aquele que ausculta o mistério inefável de Deus como que tomado de um êxtase interior; este silêncio é próprio do amor de Deus sentido em todo o seu ser.
Deus, antes de manifestar seu amor eterno, ao criar o universo, habitava o silêncio da Trindade; e, desse silêncio brotou a criação, sendo o homem a obra prima dessa ação do Pai. Somos fruto do silêncio amoroso de Deus. No silêncio vesperal de Maria, foi concebido o Salvador, Filho do Eterno Pai. A salvação nasce, portanto, do silêncio. No silêncio da Noite Santa nasceu Jesus, longe do barulho da cidade nos campos de Belém. Há muitas razões para que Deus escolha o silêncio, o ermo e assim revelar-se aos seus amados. Quando orava Jesus o fazia no silêncio dos lugares ermos. Ele dizia: "Vinde à parte para um lugar despovoado, e descansai um pouco" (Mc. 6,31).
O descanso físico é absolutamente necessário para reposição das emergias, mas um descanso baseado no silêncio total que Ele, Jesus, consumou até ao êxtase. Nisso Jesus Homem provou a presença do Pai. Silêncio que é sinal do eterno! Silêncio segredo de quem ama em comunhão com o mistério do Pai.
Ó caro Monge, tu amas o silêncio ou teu ruído interior é um constante vendaval? Teus lábios expressam o interior? Experimenta, busca e verás os alargados horizontes do silêncio em contraposição aos mesquinhos limites do ruído dos palradores. 

Contemplação - VII - Sobre a Meditação e oração mental.
Fim do Manual do Vocacionado Ceciliano.

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