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  Contemplação I
O estado de oração contemplativa.
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Contemplação - I

O estado de oração contemplativa é o estágio espiritual daquele que consegue vagar nas asas da oração mental.
A pronúncia verbal de uma formula de oração, deve conduzir ao estado da contemplação, muito embora contemplar, a rigor, não necessite, absolutamente, do balbuciar de palavras. A oração somente em palavras torna-se infrutífera, quando faz rotina e não produz os resultados desejados.
O Verbo de Deus encarnado não salvou a humanidade com suas palavras, se assim fora não teria sido necessário morrer na Cruz. Bastaria que falasse e pregasse sobre o Verbo eterno de onde Ele era desde o princípio, sem ter tido princípio  Suas palavras são vida para seus seguidores, na medida em que elas levam à contemplação do mistério maravilhoso da Cruz que é o grande desvelar de outro mistério, não menos insondável, o mistério  da ressurreição e da vida eterna.
Contemplação significa colocar os olhos da alma naquilo que é invisível, que foge ao temporal; é divino e eterno. "Não pomos nossos olhos nas coisas visíveis, mas nas coisas invisíveis. As coisas visíveis são temporais; as invisíveis, eternas. (II Cor.4,18)
Consideremos que a busca de Deus não está na linguagem, nas palavras, nem nas mais belas formulas de oração. É certo que, para os que desconhecem e não estão exercitados na prática da contemplação, é preciso chegar neles e conduzi-los a tanto, por meio das palavras, tendo sempre presente: “Pois o reino de Deus não consiste em palavras, porém em ações” (I Cor.4, 20).  A partir da palavra o homem parte para a ação; e o encontro com o inefável exige uma grande ação.
Jesus ensinou a orar, (Cf. Lc.11,2-3-4) e ensinou uma formula de palavras na famosa oração do Pai Nosso, mas que se traduzem num grande e espetacular contexto de meditação ou de contemplação, pois trata do lugar de Deus e da santidade de seu Nome, da busca do reino, do fazer sua vontade, por parte dos homens e dos seres invisíveis criados por ele, que estão nos céus, a sustentação da vida, o perdão incondicional e a misericórdia divina em troca de perdoarmos aos que nos devem, resistir as tentações e o afastamento do mal, que não é outra coisa senão o pecado e do afastamento de sua Graça e santidade.  O Pai Nosso é o resumo do Ser no todo do Homem e Deus. É a plasticidade do Espírito de Deus, na incompreensão e fraqueza intelectual do homem.
Para orar verdadeiramente é necessário à contemplação, que na prática, traduzimos como meditação daquilo que podemos materializar ou trazer à mente como imagens, que são transportadas aos foros do  espiritual, primeiro com as imagens criadas no intelecto, depois transformadas em contato com aquele que ninguém viu, manifestado pelo Espírito Santo em assombrosa revelação de imagens que não se repetem iguais de um para outro.

”Ninguém jamais viu a Deus.” (I Jo.4-12). Já o apóstolo Paulo dizia aos Coríntios:“...dei-vos a beber leite, não vos dei comida sólida, porque ainda não podíeis suporta-la” (I.Cor.3, 2)  Isto significa que o início da contemplação é muito suave, considerando que o principiante é como um bebê, que não pode ingerir o sólido, isto é, o espiritual em grande profundidade.Consideremos-nos, como bebês, quando iniciamos nossa jornada rumo ao espiritual com mais intensidade, mesmo que tenhamos idade e maturidade adulta fisicamente. “Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele.” (Mc.10,15) (Cf.Lc.18,15-17) "Dei-vos a beber leite," Paulo quer dizer da incapacidade e impossibilidade de, logo no início, ir fundo na contemplação. Que aconteceria?  O contemplador novato poderia perder a memória, o juízo ou entrar em delírio.
Os 15 mistérios do rosário oferecem amplo espaço para uma oração em profundidade, bem como as 14 estações da Via-Sacra, de vez que cada quadro sugere uma série de meditações e orações mental.
Às vezes é bom ficar pensando sem dizer nenhuma palavra, com a mente percorrendo as imagens mais doces que sugerem a inspiração, aí está á contemplação meditativa. Melhor, ainda, se repetirmos com persistência uma pequena frase tal como: “Meu Jesus Misericórdia” Isto deve ser feito diariamente, sempre na mesma hora pelo menos duas vezes ao dia. Não é necessário sentar como um Buda, basta sentar ou deitar comodamente e bem relaxado.
Uma vida contemplativa não é somente uma comunidade de rezadores que perambulam nos corredores de um Mosteiro, mas é certo que se trata de um grupo que aprende, devagar é claro, a orar mentalmente, entrando em contato com o sobrenatural, podendo obter, como fruto dessa oração, o estado de êxtase, já para um estágio bem mais perfeito e adiantado de contemplação. Assim se estabelece a contemplação constante de Deus, tornando-O presente a cada momento diante de seus olhos. Isto é agradável ao Senhor, como bem atestam os místicos São João da Cruz e Santa Tereza de Ávila e outros tantos ao longo de nossa história religiosa e ascética. O Evangelista Marcos descreve que Jesus despediu o povo “...E despedido que foi o povo, retirou-se ao monte para orar.” (Mc.6,46). Ele orou muito e até alta noite, sendo que na avançada madrugada apareceu aos discípulos, que pescavam, caminhando sobre as águas ”Á vista de Jesus, caminhando sobre o mar, pensaram que fosse um fantasma, e gritaram; pois todos o viram e se assustaram” (Mc. 6,49) A contemplação profunda pode, eventualmente proporcionar a chamada levitação e o corpo torna-se leve como uma pena de pássaro. Seria esse o caso de Jesus nessa aparição em alto mar? Talvez é mais fácil dizer que fez isso por ser Deus para quem lhe foi dada "toda  autoridade no céu e na terra" (Mt 28,18).
Por vezes, não se tem nada a dizer, mas o estar junto com alguém significa muito. Em algumas regiões do Brasil as pessoas se visitam e quase não conversam, ficam caladas. Elas contemplam-se mutuamente. De modo análogo acontece na contemplação de Deus, ficar quieto, pensando, intuindo e divagando com a mente em Deus, principalmente para os principiantes.
A Música Sacra é um meio, dos mais eficazes para entrelaçar corações com Deus. Mesmo que não se cante, nem balbuciemos nada, somos tocados, imantados e como que, magnetizados pela força interior que nos impele e isto já é a contemplação que está surgindo. É um sinal de que aqueles efeitos criam outros tantos em nós. Seria, igualmente, uma formula simples, popular, diria, de fazer o povo contemplar a Deus, sem grandes tratamentos de iniciação.
Para orar e contemplar profundamente experimente devagar, aos poucos, respirando lenta e profundamente como aspirando toda a força de Deus, isolando a mente de tudo  que for dispersivo, mundano, banal e vulgar. Eleve sua alma a Deus e dessa forma ficará mais perto do inefável, pré-gustando Sua presença divina. Presença de Quem, face a face nos é prometida, como eleitos e diletos seus, após a travessia, incólume, deste mar tenebroso da existência terrena.
Pela contemplação encontramos a Deus, eis o porquê de o mundo não permitir às pessoas contemplarem, preenchendo todos os espaços com programas de televisão, futebol, loterias, lazer em massa nas praias e logradouros turísticos, carnaval e os mais variados recursos para desviar a introspecção em Deus, o demônio, que segundo o Papa Paulo VI, deixou entrar sua “fumaça na Igreja” também adultera até a prática meditativa da tradição venerável de oração do catolicismo. Ele inspirou celebrações rumorosas, dispersivas e pontificadas pelo banal do profano, com gritos e um alarido de bandas e guitarras, danças e gestos que desvirtuam a verdadeira e legítima contemplação. Sabemos que o Espírito Santo de Deus
não está presente no ruído. "Sai e conserva-te sobre o monte na presença do Senhor: ele vai passar. Nesse momento passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento a terra tremeu; mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. Tendo Elias ouvido isto cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Uma voz disse-lhe Que fazes Elias? Ele respondeu: Consumo-me de zelo pelo Senhor, Deus dos Exércitos..."(I Rs 9,11-14)  Elias só encontrou o Senhor no silêncio suave da brisa porque Deus não estava no ruído do vento, do terremoto, nem nas chamas.
Dentro dessa linha, estendendo ao povo simples, Ordem de Santa Cecilia, tem na sua proposta de evangelização, como meta entre outras, levar uma ação missionária ao mundo de forma a conduzir este a contemplação. Sem afastar-se dos princípios e orientações pastorais da Igreja, esta Ordem quer tornar acessível ao povo a contemplação de Deus, embora simplificada distinta daquela que os Monges treinam no seu dia a dia e durante toda a sua formação.
Cumpre dizer, ainda, que a contemplação não é atingida em pouco tempo e que não serão todos iguais no modo de realizá-la; também poderá haver Monges que passando toda a sua existência, a bem da verdade, nunca realizaram como deviam, a contemplação. 

Contemplação - II - Meditação.
Contemplação - III - Exercício piedoso.
Contemplação - IV - Contemplação de Deus no mundo.
Contemplação - V Começa na admiração e exatação da Obra de Deus.
Contemplação - VI - Retirar-te ao secreto de teu coração.
Contemplação - VII - Sobre a Meditação e oração mental.
Fim do Manual do Vocacionado Ceciliano.

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