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Contemplação
II
O que é Contemplar?
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Contemplação
II:
Contemplar, segundo o dicionário
Aurélio, é “Olhar
atenta e embevecidamente; considerar com admiração ou com
amor; meditar em; admirar; apreciar” etc. etc. Contemplação,
segundo o mesmo livro é: “Demorada
e absorta aplicação da vista e do espírito;
meditação.” A
contemplação tem dois estágios fundamentais,
além dos estágios periféricos concernentes ao
nosso estado psíquico. O primeiro estágio é a
visão com os olhos físicos, daquilo que podemos admirar
do que for material ao nosso alcance. Contemplamos, destarte, uma bela
paisagem, uma cachoeira exuberante, o firmamento em uma noite escura,
longe das luzes da cidade; contemplamos os rochedos e as cavernas, os
pássaros, e o movimento do cosmo. Enfim admiramos toda a Obra de
Deus na natureza criada como ele mesmo o fez: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu
que tudo era muito bom...” (Gn. 1,31). A cada momento, estupefatos com a
grandiosidade da natureza, podemos exclamar com o salmista: “ Pois vós me alegrais, Senhor, com
vossos feitos; exulto com as obras de vossas mãos. Senhor,
estupendas são as vossas obras! E quão profundos os
vossos desígnios” ( Sl 91, 5-6) Bifurcamos essa admiração
direcionada ao homem, imagem e semelhança de Deus(Cf Gn 1,26) quando ele cria algo belo, por exemplo.
Por isso nossa vista não se cansa de contemplar os detalhes dos
belos afrescos dos Mestres da pintura. Nossos ouvidos sentem-se
massageados e afagados pela grande música de Palestrina, Mozart,
Bach e outros tantos gênios da sonoridade universal organizada e
eqüitativamente distribuída; diga-se um pouco sobre o muito
que sentimos quando a vibração do majestoso
órgão faz soar seu tutti nas abóbadas da vetusta e
gótica catedral de pedra. O hábito de admirar o belo com
olhos inocentes de uma criança conduz, sem dúvida,
à presença constante de Deus. Mediante esse estado de
contemplação é possível exclamar. “Andarei na presença do Senhor na
região dos vivos” (Sl.114, 9) Esta é a mais perfeita
contemplação, concedida somente aos sábios de
Deus, e não aos do mundo.“Os
céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a
sua glória.” (Sl.96,6). O
segundo estágio é a contemplação pelo
espírito. Mais facilmente vamos às coisas do
espírito, quando admiramos com os olhos físicos e a
inocência da alma, sem a malícia do pecado e da
concupiscência. Em espírito o Apóstolo
João foi arrebatado, tal como descreve: “Num Domingo, fui arrebatado em
espírito, e ouvi por trás de mim voz forte como trombeta,
que dizia: O que vês, escreve-o num livro e manda-o às
sete Igrejas...” ( Ap. 1, 10-11) Essa
contemplação será tanto mais maior, na medida em
que se consegue separar o profano do espiritual, o humano das
paixões. O contato com o sobrenatural e a
constante isenção passional introduz o contemplativo,
lentamente, na absorta lucidez do espírito, que é capaz
de ver através da matéria, com filtros invisíveis
como de um cristal, o esplendor do divino e do celeste; esta
possibilidade é possível, pois está dentro
de forma imanente em cada ser humano, partindo da premissa de que
foi criado para Deus. Trata-se do despertar de um gérmen
invisível, não explicado pela ciência, nem pela
criatividade da razão, mas sentido pelas almas sensíveis
à presença de Deus. De modo análogo às
coisas impuras que, tocadas por alguém, tornariam este um
impuro, (Cf. Ez. 44,25- Lv. 16,
23,27-32- Ex. 30,10 - Nn 29,7-11)
assim o tocar e estar em contato com o sagrado, corresponde, de forma
análoga, a idéia de santificação
contagiante. (Cf. Is. 65, 5 -
Ez. 44, 19 - 46,20 Ag. 2,12) A
contemplação na cultura Asiática,
Hindu e dos povos primitivos, em geral, é um sinônimo de
santificação. Ela introduz o contemplativo no louvor e
presença continua de Deus. Por isso o salmista exclama: “Feliz o povo que vos sabe louvar,
caminhando na luz de vossa face, Senhor.” ( Sl 88, 16)
Quanto mais
silencioso for o contemplativo, mais afastado do burburinho do povo,
melhor e mais facilmente ele consegue atingir esse grau da
contemplação. A Escritura faz-nos um apelo a
contemplação dizendo: “ Vinde contemplar as obras de Deus: Ele
fez maravilhas entre os filhos dos homens.”(Sl 65,5) A força do espírito em
estado de contemplação, seria capaz de abstrair a dor, o
frio ou anular a percepção dos sentidos. Chamamos isto de
êxtase. O espírito fica inebriado da força divina,
as faculdades cerebrais tornam-se muito leves e uma alegria
indescritível contagia todo o ser tal como no monte Tabor quando
os Apóstolos exclamaram: “Mestre
é bom estarmos aqui” (Lc. 9,33) O Monge da contemplação de
Deus no mundo da Ordem Ceciliana, encontrará muitos
percalços para consumar seu projeto contemplativo. Não
será fácil que ele, no rumor da grande cidade ou no
contato com os profanos, cujas idéias são
antagônicas a essa elevação de espiritualidade,
possa levar à cabo tal e tão sublime intento. Eis o
porquê de nossas Santas Regras serem tão severas quanto ao
abandono dos prazeres e deleites da vida moderna. Não vemos e
nem vimos saída para semelhante situação. No
Mosteiro será sempre o lugar onde, com proeminência, o
Monge começa a dar os primeiros e definitivos passos rumo a essa
tão desejada perfeição.
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