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  Contemplação III
A contemplação constante de Deus é um exercício piedoso.
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Contemplação III

A contemplação constante de Deus é um exercício piedoso, não muito familiar à piedade, até hoje conhecida, difundida e praticada pela maioria dos cristãos. Trata-se da piedade pensante, imaginativa, criativa e de uma ação constante de motivação cerebral que o capacita a reunir condições de concentrar e reter uma idéia por longo tempo e, até mesmo, perdê-la por alguns instantes e retoma-la depois. Não é fácil ser contemplativo no mundo. A cada instante as pessoas poderão interromper nossa contemplação com perguntas, dúvidas e mesquinharias. Quem diria, na mentalidade cristã moderna, que alguém calado esteja orando e, muito mais que isso, unido ao Deus da Revelação. "Abrão tinha  noventa e nove anos. O Senhor apareceu e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo Poderoso. Anda  em minha presença e sê perfeito." ( Gn. 17, 1)
Isto aconteceu com Abrão, antes do pacto que Deus fez com ele, depois do qual Deus lhe trocou o nome para Abraão (Cf. Gn. 17, 4-5) Precede qualquer investida de caminhar com Deus o colocar-se em Sua presença e contempla- Lo nos infinitos atributos de Sua Divina Santidade.
Para viver a contemplação constante é necessário, abstrair os pensamentos mundanos. Nossos pensamentos têm força de atração para aquilo que muito pensamos. Os deleites e prazeres do mundo, a satisfação dos apetites da carne e outras satisfações carnais geram e duplicam o mesmo tipo de pensamento. O Religioso que não está pensando no Senhor tem menores chances de tornar-se um santo, menos ainda de cumular dentro de si, uma série de experiências pessoais de Deus, as quais poderão ser muito útil no momento de transformar tudo isso em Ação Apostólica ou pastoral. Aquele canto Religioso popular,
"Estou pensando em Deus" é um estimulo e didático convite para que o povo busque o pensamento de Deus, numa palavra, que ande contemplando o Senhor. O esvaziamento interior de Deus, que é realizado pela contemplação, e quando esta não existe, leva a frieza e a indiferença para com as coisas espirituais. Também pudera, num mundo onde endeusam o corpo e os apetites da carne, sobra espaço para a contemplação?
A Imitação de Cristo, sabiamente diz: "Nossos pensamentos unidos aos seus, nossas afeições e obras unidas às suas divinizam-se; e como a perfeição do Filho é a mesma perfeição do Pai, por nossa união com o Filho, que começa no mundo e se consumará no Céu, nos tornamos perfeitos como o Pai é perfeito. (Cf. Mt. 5,48). O Yogue Ramacháraca faz uma colocação análoga quando diz que os vários pensamentos das pessoas formam uma projeção de ondas de pensamento de maior ou de menor força, tamanho e poder, de uma e de outra parte do planeta, e que poucas nos afetam por não estarem em harmonia com os nossos próprios pensamentos, modos, caráter e gostos. Atraímos à nossa consciência íntima somente os pensamentos que estão em harmonia com os nossos próprios. Diz ele que isto é uma força que influencia outras pessoas, mesmo as que não estejam nem imaginem a existência, de uma estágio espiritual de tamanha grandeza. (Livro:14 lições de filosofia Yogue de Ramacháraca) O leitor poderia perguntar, com não poucos escrúpulos de fé, se fica bem tomar referências de um Yogue para coisa tão séria como a contemplação. Nós respondemos que, querendo encontrar ao Senhor na contemplação  e não apenas na doutrina e dogmas de uma crença, a rigor, não importa os meios e sim o fim. Usamos este favor do Yogue, à guisa de empréstimo, nossa contemplação de Deus a faremos dentro dos princípios fundamentais de nossa fé  Católica. Os princípios são  análogos, ambos levam a união com Deus.
A íntima união contemplativa de Deus não assume dimensão estatura e grau sem cultivarmos a humildade.
Mas, que é a humildade senão o reconhecimento do que somos, sem falsa modéstia, quando somos prendados e possuímos algum dom especial ou quando pensamos que somos muito e, na verdade, não somos nada. Pensas que humildade é deixar todos passarem um rolo compressor por cima e ficares calado? Não seria humildade, poderia muito bem ser covardia! Pensas que humildade é andar vestido de andrajos? O humilde o é, dentro de si mesmo, em primeiro lugar, para abrir-se exteriormente como as flores. O humilde vê o bem no outro, reconhece o valor de seu próximo e não o despreza, não teme que o outro tenha melhores qualidades tanto manuais como intelectuais ou espirituais, que si mesmo.
Impossível realizar a contemplação para alguém que pense saber mais do que os outros, ou se, deveras sabe, deve julgar como um atributo, que não lhe pertence; assim chegará mais alto no sublime contato com Aquele que é inacessível para o corrupto e pecador.
O estado de inocência, ou a justificação, mediante a penitência, as boas obras e a caridade, conduzem-nos, inexoravelmente à contemplação efetiva de Deus, se formos realmente conscientes do alto significado deste segredo de contemplar. O campo áurico do ser humano fica inundado de um raio luminoso, diáfano e transparente, que é uma pálida imagem de Deus, mas o é, quando estabelecemos esse contato que se assemelha a torre transmissora e o receptor, mediante a contemplação. O estado contemplativo se traduz em presença de Deus, contato com Deus e até visão de Deus. Podemos vê-Lo, não com os olhos da carne, mas de forma espiritual e isto na medida em que mais conseguirmos penetrar no insondável por essa contemplação, que poderia levar ao êxtase.
É importante combater os movimentos desordenados da natureza humana, insisto, pois na medida em que elevamos a carne, rebaixamos o espírito e vice e versa. Se você vence a carne e seus apetites elevam o espírito. Este combate é o verdadeiro sinal do herói lutador de Cristo. Pela contemplação criamos uma solidão maravilhosa, uma câmara secreta onde habita o Altíssimo e o melhor lugar para Ele dar suas audiências, escutar-nos e falar-nos, acima de tudo. O Monge foge para o deserto, que não é outra coisa senão, o esconderijo de seu próprio coração, trata-se de um deserto transformado em paraíso, pois só nesse lugar Deus concede que o vejamos e que possamos com Ele falar. Nesse deserto ouviremos aquela voz: Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa, (Ex.3,5)  como Ele disse a Moisés no Monte Sinai, Despir os pés significa despojar a alma de seus afetos, para amá-lo acima de todas as coisa. Não levem sacola nem bolsa, como dizia Nosso Senhor aos setenta e dois discípulos, pois nada deste mundo deves ambicionar. A ninguém saudeis pelo caminho, mesmo que estejas cercado de pessoas, pois deves ocupar em Deus todo o teu pensamento e todo o teu afeto. Deixa que os mortos enterrem seus mortos e caminha sozinho, tu, rumo á terra dos vivos, isto é, daqueles que vivem constantemente a Graça, que é vida para a eternidade, e não tenhas parte no reino da morte, pactuando com aqueles que vivem para o pecado, para as grandezas e exaltações do mundo e da vida passageira. (Cf. "O caminho do paraíso" de Lourenço Scúpoli pag. 346) Lembra-te com o salmista e pede: "Peregrino sou sobre a terra não me oculteis os vossos mandamentos" (Sl. 118, 19).
Caro Monge, no teu deserto árido, poderá encontrar o oásis e a fonte da água que mata a sede para vida eterna.

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Contemplação - IV - Contemplação de Deus no mundo.
Contemplação - V Começa na admiração e exatação da Obra de Deus.
Contemplação - VI - Retirar-te ao secreto de teu coração.
Contemplação - VII - Sobre a Meditação e oração mental.
Fim do Manual do Vocacionado Ceciliano.

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